Você e seu filho estão brincando no parque, quando um vendedor de sorvete surge e oferece – numa promoção exclusiva aos dois – um delicioso picolé de chocolate. Está perto da hora do almoço e, além de tudo, a criança teve dor de garganta durante a semana, apresentando melhora só naquele dia. Definitivamente, comprar o sorvete não é uma boa opção e você logo responde ao olhar “pidão” do menino com um NÃO bem enfático.

Adivinha o que acontece na sequência? Isso! Choro, grito, criança no chão, esperneando, e uma plateia inteira na expectativa do que vai se desenrolar dali. Você está cansada, foram muitos dias de cuidado integral, porque ele teve febre e não se alimentou direito, nem dormiu bem. Você também. Aquele passeio no parque era um primeiro respiro depois de uma semana estressante. Mas você ainda não relaxou e, por estar emocionalmente abalada, grita com ele, reforçando que “já disse que não vai comprar o sorvete. E PONTO.”. Pega o menino pela mão e o arrasta, pois ele não quer ficar em pé, enquanto as pessoas ao redor assistem ao espetáculo. E julgam. A começar pelo sorveteiro, que te reprova fazendo “não” com a cabeça e resmungando alguma coisa que você não consegue ouvir. Nem precisa…

Quem tem filhos, leu a cena e logo se lembrou de uma situação similar que tenha vivenciado. Quem não é mãe ou pai, certamente já viu isso acontecer em algum lugar, talvez com uma pessoa próxima. Esses ataques de raiva, protagonizados pelas crianças, são típicos da fase e um grande desafio para a maioria dos cuidadores. Há tantas questões em jogo: o que dizer ou fazer quando o filho se comporta dessa forma? E a vergonha pela exposição pública?!

Foi pensando nessa e em outras situações comuns aqueles que convivem com crianças, que a educadora norte-americana Jane Nelsen resolveu reunir em um livro ferramentas práticas para lidar com comportamentos desafiadores. Mais do que dicas simples, o que Jane propõe com a Disciplina Positiva é que os adultos percebam determinadas condutas como mensagens. É por meio da birra, dos ataques de raiva, da manha, que – muitas vezes – a criança expressa o que sente.

Isso vai ao encontro do que Marshall Rosenberg apontou em seu trabalho sobre Comunicação Não-Violenta: “Toda violência é a manifestação trágica de uma necessidade não atendida”. No caso da criança, como a linguagem verbal é restrita, o corpo passa a ser o seu veículo para manifestar aquilo que a está incomodando e cabe ao adulto, em um exercício empático, perceber a sua dor e agir a partir dali.

Que se tenha notícia, Jane e Marshall nunca estiveram juntos, mas as suas pesquisas conversam muito, pois ambas trazem luz a algo crucial nas relações humanas: a boa comunicação. Saber ouvir o que de fato está sendo dito pelo outro e expressar o que de fato queremos dizer, embora pareça tarefa simples, é das mais difíceis. E isso se dá em todas as esferas da vida, inclusive entre pessoas de diferentes idades. Mas com alguns ajustes, é possível adequar o discurso e, principalmente, sintonizar os corações para que a conexão prevaleça. Afinal de contas, não é esta a prioridade quando estamos junto de quem amamos?

Listamos abaixo cinco características presentes tanto na CNV quanto na DP para a reflexão da aplicação delas nos desafios diários com os filhos. Esteja à vontade para compartilhar suas experiências, bem como considerações a respeito desse artigo, nos comentários. Estamos falando de uma abordagem e de uma metodologia bem práticas, por isso elas só fazem sentido quando repercutem na vida e a troca das histórias é, certamente, um ganho para todo mundo!

Ler o que há por trás do comportamento

A primeira delas já foi mencionada antes, mas – dada a importância – vale a pena repetir. É preciso considerar que todo comportamento desafiador, muitas vezes violento, se deve a uma insatisfação. Algo incomoda a criança e aquela foi a maneira que ela encontrou para contar isso. Cada criança é única e, por isso, não é possível justificar um comportamento por um motivo específico; é preciso conectar-se para saber “ler” o que se passa com ela.

Estar presente

Disciplina Positiva e Comunicação não violenta

Falar em presença faz-se extremamente necessário nesse mundo de tecnologias e tantas informações que sugerem distrações a todo o momento. Para perceber quais as demandas do filho, enquanto estiver com ele, é preciso que o cuidador se entregue integralmente a fim de captar não só o que ele diz, mas também o que está nas entrelinhas de seus gestos. Observá-lo, escutá-lo de forma afetiva, deixando de lado todo o resto, o fará se sentir importante e dará segurança para, com mais liberdade, a criança manifestar o que sente.

Ensinar sobre os sentimentos à criança

Muitos de nós crescemos embotando nossos sentimentos e, por vezes, nem sequer refletindo sobre eles. Perceber o que se passa internamente, no entanto, nos ajuda a lidar com aquilo de uma forma mais efetiva. Por isso, é importante ensinar à criança a demonstrar aquilo que sente, dizendo: “Você está triste? Frustrado?” e contar sobre suas próprias experiências quando se sente assim. Dessa forma, ela poderá entender – pelo contexto – o que a incomoda e se expressará de forma mais clara. Serão estabelecidos vínculos de confiança e cumplicidade e essa prática irá favorecer a percepção do que se passa com ela, por parte do cuidador, quando a criança apresentar algum comportamento desafiador.

Linguagem positiva

Às vezes, uma simples palavrinha, ou a ausência dela, faz toda a diferença. Privilegiar a linguagem positiva e tomar cuidado para não dar um tom de ameaça ao que diz é fundamental. O medo da punição, por parte da criança, diminui a autoestima e a boa vontade. “Quando temos medo de ser punidos, concentramo-nos nas consequências e não em nossos próprios valores” – Marshall Rosenberg.

Na Disciplina Positiva há uma ferramenta interessante para estruturar a frase sem que haja ameaça: substituir o “se” pelo “assim que”. Por exemplo, em vez de “se você não guardar o brinquedo agora, não vai comer a sobremesa”, dizer “assim que você guardar o brinquedo, irá comer a sobremesa”.

Olhar para si

Para Marshall Rosenberg, é na troca com o outro que acabamos escutando não só as necessidades dele, como também as nossas. O que será que o meu comportamento raivoso, impaciente com aquela criança, está querendo me dizer? Dar um tempo para si, acolher as próprias necessidades, estabelecendo autoempatia, é também um passo importante para a melhora de nossos relacionamentos.

Firmeza e gentileza ao mesmo tempo

Voltemos à cena do começo…

Vamos supor que o que motivou o menino do parque a chorar e gritar tenha sido o sentimento de frustração por não ter tido as suas expectativas atendidas. Depois de tirá-lo de cena, dizendo o mínimo (se possível, nada), e após ele se acalmar, a mãe o aborda assim: “Eu sei que você ficou chateado por eu não ter te comprado o sorvete. No seu lugar, eu também ficaria. Eu gosto muito de sorvete! Assim que você ficar bom da garganta, compraremos um.”. Dessa forma, ela valida o sentimento do menino. Acolhê-lo com empatia, colocando-se em seu lugar, é uma saída para estabelecer um vínculo mais profundo. É só quando conseguimos compreender o que o outro sente, sem julgamento, que favorecemos a conexão.

Disciplina Positiva e Comunicação não violenta

Outra coisa: Algumas coisas acontecem no nosso corpo quando ficamos nervosos: ele fica quente, o coração palpita…ensinar a autopercepção e, principalmente, formas de se acalmar (respiração profunda, copo d’água, um cantinho ou objeto a que recorrer) à criança também são importantes, pois farão com que – quando ela sentir no corpo que está com raiva, procure uma das alternativas sugeridas.

Educar é, certamente, um grande desafio – como toda e qualquer relação humana. Mas dispomos de alguns recursos para trazer leveza às experiências junto dos filhos. Que as redes (virtuais e físicas) se fortaleçam no sentido de favorecer as práticas positivas de comunicação e que, cada um, dentro do que pode, faça o seu melhor. Com firmeza e gentileza. Certamente, aquilo que a criança absorver nessa primeira escola, que é o lar, levará adiante e poderá contribuir muito para uma sociedade mais pacífica e amorosa.

Quer saber mais sobre Disciplina Positiva e aprender ferramentas para lidar com comportamentos desafiadores?

Conheça o curso online Disciplina Positiva para mães e pais de crianças pequenas, ministrado pela Bete P. Rodrigues – uma das tradutoras dos dois livros sobre o tema em português; educadora há mais de trinta anos e a única trainer (formadora de formadores em DP no Brasil). A Bete também é mãe e avó.

No curso, ela apresenta ferramentas práticas para lidar com birra, manha, ataques de raiva e outros comportamentos recorrentes às crianças. Para ilustrar e reforçar os conceitos, são contadas muitas experiências pessoais e histórias que ouviu ou presenciou nesses dez anos em que se dedica à Disciplina Positiva.

 

Curso online Disciplina Positiva para mães e pais de crianças pequenas: http://cursos.educacaoparapaz.com.br/


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