Pensar em guerra é invocar imagens aterrorizantes de violência, desespero, destruição. Esse tipo de situação é um dos extremos da barbárie humana: a capacidade de aniquilar um imaginário opositor. E no cenário de horror, muito além da disputa entre aqueles que desejam o conflito, dezenas de milhares de pessoas sofrem as consequências. A começar pelas crianças. A fim de amenizar traumas e ressignificar as experiências dolorosas vividas pelos pequenos em meio a esse tipo de situação e, também, após catástrofes naturais, um professor Waldorf alemão, chamado Bernd Ruf, criou a Pedagogia de Emergência.

Tudo começou em 2006, quando ele esteve no Líbano durante a guerra entre Israel e o Hezbollah para acompanhar o repatriamento de 21 jovens libaneses. Os estudantes estavam na Alemanha num encontro promovido pela prefeitura de Stuttgart, com o apoio dos amigos da Arte de Educar, organização de apoio ao movimento internacional da Pedagogia Waldorf, quando o conflito foi deflagrado. Como os jovens não podiam voltar para sua terra natal, os organizadores do evento cuidaram de tudo para que eles ficassem na Alemanha até a situação se tornar menos crítica. Mas os familiares dos adolescentes imploraram pela volta de seus filhos, que também estavam ansiosos pelo retorno. No Líbano, diante de uma situação grave, os membros de uma família se reúnem para, se for o caso, morrerem juntos. Foi feito um cuidadoso planejamento para que eles pudessem, então, viajar apesar da guerra. A UNESCO emitiu um salvo-conduto e os detalhes foram acertados com as autoridades militares de Israel e do Líbano para que o repatriamento se desse com segurança. O que ocorreu. (Fonte: http://pedagogiadeemergencia.org/a-pedagogia/#historico)

Bernd Ruf os acompanhou e, pela primeira vez, deparou-se com uma guerra. O que mais lhe chamou a atenção foram as crianças: “Estavam assustadas, apáticas, pálidas, com um olhar sem brilho e vazio.”. Então, Bernd pensou o que podia empregar da Pedagogia Waldorf naquela situação desoladora a fim de, ao menos, amenizar o que os pequenos haviam experimentado. “A pedagogia do trauma se coloca como uma abordagem educacional (especial), cujo objetivo é a estabilização e o apoio a crianças e jovens traumatizados” (Kühn, 2009). Algumas atividades com arte foram realizadas, dando início ao que depois, de forma sistematizada, viria a ser a Pedagogia de Emergência.

Desde então, munidos de poucos recursos materiais (pequenos tecidos, fitas, lãs), somados a jogos, dinâmicas – situações de trabalho em grupo –, voluntários do mundo inteiro atuam para abrir uma fresta em meio à situação obscura da guerra e das catástrofes. As intervenções acontecem nas oito primeiras semanas após o episódio aterrador, quando é mais fácil de elaborá-lo e trabalhar para que ele não cause maiores consequências físicas e psíquicas, sobretudo nas crianças.

Abordagem Pikler – o amor em tempos de cólera    

Foi, também, para atender a uma demanda urgente que a médica húngara Emmi Pikler assumiu a direção de um abrigo para órfãos que tinham perdido seus pais na segunda 

guerra mundial em Budapeste. Pelo Instituto Lóczy, passaram mais de oitocentas crianças de 0 a 3 anos. Neste lugar, Emmi desenvolveu uma pedagogia voltada a bebês – baseada no estabelecimento de vínculo, movimento livre e autonomia – que se tornou uma referência ao redor do mundo. Assim como na Pedagogia de Emergência, os recursos eram mínimos, mas ela percebeu – nos objetos não-estruturados que costumamos ter em casa, como utensílios de cozinha – meios de a criança ir se relacionando com o mundo de forma livre e autônoma, de modo a propiciar a si mesma um desenvolvimento saudável. Isso tudo assegurado pelo estabelecimento de vínculo com o cuidador nos momentos de troca, alimentação e sono a fim de alcançar a camada mais profunda dos bebês. Tanto a Pedagogia de Emergência quanto a Abordagem Pikler, quando de sua fundação, podem ser consideradas um pronto-socorro de almas. 

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Pelo pioneirismo da proposta, essas crianças foram acompanhadas até a vida adulta e não apresentaram características inerentes àquelas que viveram em abrigos, como hospitalismo, apatia e problemas de relacionamento. O que Emmi desenvolveu foi fundamental para que aqueles bebês ressignificassem os traumas inevitavelmente experimentados por conta da perda de seus pais na guerra e crescessem de forma sadia.

Trabalhar a essência infantil: a importância do brincar

“A Pedagogia de Emergência procura construir espaços tanto de proteção exterior objetiva quanto de segurança interna subjetiva. Para poder reconquistar o sentimento de segurança após um trauma, faz-se necessário um espaço externo de proteção, que transmita a sensação de abrigo e tranquilidade. Somente dessa maneira pode ser reconstruída a relação, interrompida pelo trauma, da criança com o seu meio ambiente natural e com outras pessoas.”

Bernd Ruf, “Destroços e traumas, embasamentos antroposóficos para intervenções com a Pedagogia de Emergência”

A melhor maneira encontrada por Bern para trabalhar internamente tudo o que acontece em uma situação traumática é a atividade lúdica. Nas muitas rodas de canto, desenho, percussão corporal e trabalhos manuais da Pedagogia de Emergência, as dores acomodadas no porão dos sentimentos vão ganhando forma e um espaço mais generoso dentro das pessoas. Porque são acolhidas. Durante as dinâmicas, um sentido alegre inerente à infância é recuperado, trazendo um ar fresco de esperança e vida. E isso não acontece só com os mais novos.

Reinaldo Nascimento, um dos mais conhecidos nomes da Pedagogia de Emergência no Brasil, conta que, em países como o Iraque, as crianças são alistadas no Exército muito pequenas, por isso costumam pular as fases de brincadeiras e descobertas. Isso traz sérias consequências na vida adulta. É muito comum, nas atividades organizadas pelos voluntários nesta região, que algumas dessas pessoas que tiveram privações durante a infância queiram participar das atividades coletivas junto dos pequenos. Uma roda paralela é criada, então, para que elas possam experienciar o que não foi vivido.

O brincar também é fundamental para a Abordagem Pikler. E ele tem de acontecer de forma a respeitar a singularidade da criança para que se dê com plenitude. Preparar um ambiente interessante à exploração é o primeiro passo a ser dado pelo adulto de referência, pois é em situações como esta, de movimento livre, em um ambiente seguro, que toda a estrutura cerebral vai sendo formada nos primeiros anos de vida.

É pelo brincar que a criança já manifesta a sua personalidade e se organiza ao elaborar o mundo. A abordagem Pikler procura fornecer condições para que as crianças possam se construir em uma base sólida, positiva a respeito do que as circunda e, com segurança, deem vazão ao pulsar da vida, crescendo com alegria. O brincar tem papel fundamental no resgate, além de alimento, da essência infantil. É, também, uma poderosa ferramenta na cicatrização de feridas, uma vez que possibilita a ressignificação da vida.

Vínculo – uma via de afeto de mão dupla

A pesquisa de Bernd Ruf aprofundou-se em uma série de dados a respeito de como as pessoas, em especial as crianças, elaboram a violência que sofrem. O que se constatou é que quando o “algoz”, aquele que pratica a violência contra elas, é quem deveria protegê-las, as feridas na alma são mais profundas e é mais complexo o trabalho de superar a dor, sem que haja graves consequências ao longo da vida.

Por aí se vê como a presença de um adulto de referência com forte base afetiva e de respeito, nos primeiros anos, ajuda a dar o “tom” do desenvolvimento de uma criança. Para Pikler, o estabelecimento do vínculo nos momentos de cuidado dos bebês é matéria-base para que eles adquiram a segurança necessária para explorar o mundo com leveza e autonomia.

Uma história inspiradora da Pedagogia de Emergência com bebês

Em países africanos, onde a guerra civil perdura por anos sob o nosso desconhecimento, é muito comum que mães fujam com seus filhos de casa ou de algum ambiente perigoso. Na hora da pressa, durante a travessia, muitas vezes, elas os derrubam, o que faz com que os bebês desenvolvam um trauma de queda. Para recuperar a segurança, não só na mãe como na vida, a equipe da Pedagogia de Emergência costuma fazer uma dinâmica com as famílias: Todos se sentam em roda e a mãe é orientada a colocar a criança virada para ela, com as costas sobre suas coxas. Então, enquanto cantam uma canção típica do lugar, que fale ao coração dos pequenos, elas vão abrindo as pernas aos pouquinhos. Quando os bebês estão “para cair”, os resgatam e dão abraços e beijos, assegurando que não os deixarão ir ao chão.

Traumas cravam feridas dolorosas na alma, mas podem ser amenizados se trabalhados de forma efetiva logo após o acontecimento doloroso. O caminho para isso é o de resgatar a essência da criança e, principalmente, estabelecer um novo código de segurança entre ela e o adulto de referência. O afeto tem de ser a linha que irá costurar a ferida e por meio dessas intervenções amorosas, apesar das adversidades, o que foi vivido será incorporado à biografia, à história da pessoa, com amor.

 

Tudo o que diz respeito à Pedagogia de Emergência, tanto no que se refere à leitura antroposófica do Ser, quanto a detalhes de intervenções em diferentes países do mundo, pode ser encontrado no trabalho acadêmico, que virou livro, intitulado: “Destroços e traumas – embasamentos antroposóficos para intervenções com a Pedagogia de Emergência”, de Bernd Ruf: https://goo.gl/w6ahJj

E, no link a seguir, você confere os livros em português sobre a Abordagem Pikler: https://goo.gl/eogkTq