Agnès SzantoAgnès Szanto foi uma das crianças atendidas por Emmi Pikler, pediatra húngara que trabalhou junto de famílias e dirigiu um abrigo, no pós-guerra, na cidade de Budapeste. “Apesar de não me lembrar dos cuidados na primeira infância, tenho certeza de que carrego algo dessa experiência ”, disse Agnès em sua palestra no Simpósio Internacional Sobre a Primeira Infância, que aconteceu nos dias 8 e 9 de setembro, na cidade de São Paulo.

 

Antes disso, ela gentilmente cedeu uma entrevista ao Portal em que compartilhou um pouco de sua experiência como consultora em escolas e especialista na Abordagem Pikler, pedagogia para crianças de 0 a 3 anos que tem, entre seus princípios, o reconhecimento do bebê como indivíduo capaz desde o nascimento, a valorização do vínculo afetivo, a liberdade de movimentos e o desenvolvimento da autonomia.

 

Confira!

 

Educação para Paz: Por favor, nos conte de forma resumida o que é a Abordagem Pikler

 

Agnès Szanto: É um olhar global sobre a criança a partir das descobertas básicas de Emmi Pikler. Depois de realizar pesquisas e trabalhos como médica de família e em um instituto, ela desenvolveu a abordagem que – sobretudo – vê a criança como alguém ativo desde o nascimento. Alguém que interage. Esse bebê começa a vida primeiro querendo se conhecer e depois passa a querer conhecer o ambiente em que irá viver. Nesse processo, estabelecer um vínculo afetivo com o adulto é de fundamental importância, uma vez que essa figura de referência irá lhe dar segurança para as primeiras explorações – que resultarão no desenvolvimento motor.

 

Outro fator fundamental é a questão da motricidade livre, espontânea. É da natureza humana, se não houver restrições físicas e intelectuais: o bebê irá passar por todas as etapas até a marcha, o caminhar. Por isso, Emmi dizia aos cuidadores que o mais importante é favorecer o ambiente para que isso ocorra no ritmo da criança, sem forçá-la. É algo que tem de acontecer de dentro para fora e não de fora para dentro, possibilitando as conquistas e desenvolvendo a autonomia.

 

Educação para Paz: Conte-nos mais sobre a importância do respeito ao ritmo da criança.

 

Agnès Szanto: É preciso dar à criança a possibilidade de ter a sua personalidade. Para a constituição do sujeito é importante. Cada vez que antecipamos algo que ela possa executar, a gente rompe com o seu desenvolvimento harmônico. Preciso falar aqui da superestimulação, muito comum nas creches e escolas. É como que dizer que falta algo à criança, que ela não tem condições de explorar e conhecer o mundo sozinha, por isso precisa ser estimulada. Não a aceitam como ela é, exigindo além do que ela possa fazer. É muito importante respeitar o ritmo de cada uma e, até mesmo, os diferentes ritmos de uma mesma criança, pois às vezes não há linearidade.

 

Educação para Paz: Como se prepara um ambiente em casa para a exploração da criança?

 

Agnès Szanto: Existem algumas condições básicas: não colocar a criança em posturas que ela não conhece; não sentá-la; vesti-la com roupas que permitam o movimento fluido. É importante ter o chão como suporte. Esse é um tema polêmico, muitos cuidadores hesitam em colocar a criança no chão, mas quem conhece motricidade sabe da importância disso para o bebê. Outra coisa é dar à criança a oportunidade de ter um espaço maior do que ela usufrui no dia a dia (não precisa ser muito grande, para que não se perca). Aos poucos, ela vai aprendendo a disposição: porta, parede, etc. Sobre os brinquedos: têm de ser simples. São aqueles que ela possa manusear, explorar, combinar de formas diferentes. Eles costumam evoluir com o tempo, a partir das demandas de cada criança.

 

Abordagem Pikler, a ciência dos pequenos detalhes

 

Educação para Paz: Pensando em ambiente escolar, que medidas simples uma escola infantil pode adotar para favorecer a liberdade de movimento da criança?

 

Agnès Szanto: As condições materiais mencionadas na resposta anterior já são muito importantes. Também é interessante separar os ambientes: lugar de brincadeira, lugar de cuidados. Organizar as crianças em pequenos grupos, de 5 a 6 – que é um número que um adulto dá conta. Deixar que ele cuide sozinho delas, sem que haja outro cuidador e isso possa estimular conversas entre eles e não com as crianças.

 

É fundamental que o adulto saiba da importância do brincar autônomo. Isso dá a possibilidade a ele de cuidar de uma criança de cada vez sem culpabilizar-se, uma vez que enquanto cuida de uma sabe que as outras estão explorando seus movimentos e os brinquedos. Isso faz com que elas se sintam afetivamente acolhidas, seguras.

 

Ah, o diretor da escola é a figura crucial. Ele é o que mais deve saber observar a criança e dar suporte à equipe.

 

Educação para Paz: Qual a postura adequada para um cuidador?

 

Agnès Szanto: Ser sincero com a criança, a reconhecendo como uma pessoa. Trata-se de um diálogo de pessoa para pessoa. Ter um cuidado geral: checar se o bebê prefere a comida mais quente ou mais fria, se já está satisfeito ou com fome, por exemplo.

 

Se a gente pode organizar uma equipe (família mais cuidador), é ótimo. Dá coerência e a criança é sensível a isso. Quando conversamos com as mães e pais, não temos por objetivo educá-los, mas sim explicar o que fazemos de diferente. Se houver unidade, melhor para a criança – sobretudo a bem pequena – pois isso lhe transmitirá segurança.

 

Educação para Paz: Qual a importância da relação, interatividade, entre bebês para os seus desenvolvimentos?

 

Agnès Szanto: O mais importante é a primeira fase, se constituir antes de entrar em relação com os outros, mas as que são criadas juntas trabalham a afetividade, estabelecem relações. A partir do que elas observam dos adultos, agem umas com as outras. Com 15 meses existem certos impulsos, mas a forma como o adulto ajuda a lidar com isso pode influenciar um ambiente tranquilo, estruturante. A partir dos 2 anos, 2 anos e meio, elas começam a brincar juntas.

 

Educação para Paz: Lançamos, recentemente, um portal de Educação para Paz destinado a cuidadores, educadores, com abordagens e ferramentas que possibilitam o desenvolvimento integral de crianças e jovens. Gostaria de te pedir, então, que fale sobre como o cuidado para com bebês está diretamente relacionado a uma cultura de paz.

 

Agnès Szanto: Emmi Pikler foi brilhante pelo fato de dar ao bebê o protagonismo desde o começo. Reconhecê-lo como alguém inteiro (com sensibilidade, iniciativas, interatividade)… Trata-se de uma atenção tão refinada, de detalhes, que torna os momentos de cuidados agradáveis. Vou dar um exemplo: O recém-nascido tem uma tonicidade, é claro, existem reflexos. Se para secar embaixo do braço, as axilas, puxamos a sua mão,  ele naturalmente irá retrair, recolher o braço. Uma maneira de fazer isso, é segurar embaixo do cotovelo. A criança irá responder na hora, com tranquilidade, levantando o braço. São essas sutilezas que fazem toda a diferença. Não se pode esquecer que o que estamos tratando aqui é do nosso futuro como humanidade. Por isso, também é preciso ter um cuidado especial para com os cuidadores. Há muita responsabilidade nas mãos deles.

 

 

 

*Agradecimento especial a Rita de Moraes, pela tradução das perguntas.

 

 

 

Saiba mais sobre a Abordagem Pikler: