A Arteterapia é “o uso de atividades artísticas, mais especificamente das artes plásticas, no processo psicoterapêutico, para facilitar a resolução de conflitos interiores afetivos e comportamentais”, define Santina Rodrigues, docente do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

E muita Arte é feita nas escolas, principalmente na Educação Infantil: pinturas de diferentes formas e tamanhos, dobraduras, modelagem com argila, colagem, desenhos e mais desenhos… Mesmo que não se dê muita atenção para o lado terapêutico destas atividades, este aspecto também pode ser trabalhado nessas interações artísticas do dia a dia, ainda que de maneira silenciosa e invisível ao corpo docente. 

O valor terapêutico da Arte ainda é pouco discutido no ambiente escolar e este assunto acaba se limitando ao campo da Psicologia. Incluir a Arteterapia na escola não significa que o educador tenha que se colocar na posição de um terapeuta, que analisa a vida de seus alunos por meio das produções artísticas. Incluir a Arteterapia na prática educativa tem a ver com resignificar o olhar do educador, para que a alma do aluno também seja contemplada, além dos conceitos e conteúdos que já fazem parte da rotina em sala de aula.

Passar conteúdos quando não se conhece um pouco da vida da criança, as suas relações familiares, as relações com os amigos da escola, com quem fica na hora do lanche ou se fica sozinho… é olhar a criança pela metade. É importante ter uma ideia de que se a vida que uma criança leva, favorece o seu florescimento como Ser-Humano ou contribui para seu empobrecimento. E vale se perguntar: “será que consigo amparar uma criança que se encontra vulnerável, que está se perdendo em emoções dolorosas?”.

Há muitas formas de lidar com situações desafiadoras. E o diálogo nem sempre é o melhor caminho. Tendo como suporte a Arteterapia, é possível chegar a lugares que a palavra não daria conta. Veja o que diz o Psicoterapeuta Jung sobre isso:

 

“Muitas vezes as mãos sabem resolver enigmas que o intelecto em vão lutou por compreender. Modelando um sonho, podemos continuar a sonhá-lo com mais detalhes, em estado de vigília, e um acontecimento isolado, inicialmente ininteligível, pode ser integrado na esfera da personalidade total, embora inicialmente o sujeito não tenha consciência disto.” (JUNG, 1958/1984h, §180)

 

A partir desta abordagem terapêutica, toda a Arte que uma criança fizer terá um interesse maior para o professor, pois nenhum rabisco numa folha é feito em vão; sempre tem algum significado, alguma mensagem do inconsciente.

Como incluir a Arteterapia na escola:

  • Considerar o valor emocional das atividades, prestar atenção no comportamento e na postura da criança diante de determinada proposta e materiais, observar discretamente o que a criança está desenhando/pintando/modelando, etc.

 

  • Pensar em propostas em que as crianças possam expressar-se livremente em suas produções artísticas, de maneira espontânea, intuitiva, sem interferências do adulto. Por exemplo: se uma criança faz um belo desenho, mas no final, decide passar uma cor preta por cima dele, não interferir, por que isso faz parte do processo de expressão e criação dela. (Vale lembrar das belas Mandalas de areia feitas pelos Monges Tibetanos que, depois de prontas, são totalmente desfeitas).

  • Trabalhar Mandalas de diversas formas, com aquarela em formatos circulares de papel, pintura de mandalas impressas, mandalas com elementos da natureza, entre diversas outras possibilidades… Este é um grande recurso para o reestabelecimento do equilíbrio interno, pois o círculo representa a totalidade do ser.

  • Proporcionar vivências em que as crianças possam explorar livremente a Materialidade dos objetos. A materialidade envolve a qualidade dos elementos materiais: volume, textura, cor, peso… E observar como as crianças se relacionam com os materiais apresentados. Nem sempre é preciso ter uma atividade com um objetivo relacionado a algum conteúdo estudado. Por exemplo, ter um momento no Atelier no qual as crianças simplesmente possam explorar algum material, por exemplo, a argila. E esta seria uma atividade de cunho terapêutico e expressivo.

“… O contato com a matéria, e com as técnicas que permitem lidar com ela, ensinam um fazer alegre. Ela é viva. Ela não morre, mas se consome. De certa maneira, este fazer enraíza a criança na sua vida, no seu planeta, no seu ambiente maior; isso produz muita alegria e a criança encontra o seu eixo”.

Céline Lorthiois, idealizadora da Pedagogia Profunda

  •  Refletir sobre as produções dos alunos: quando o educador estiver num momento mais tranquilo, é interessante sentar-se e refletir com calma sobre cada produção artística da turma, e como cada uma se relaciona com a criança que a fez. Às vezes, algum desenho se destaca por algum motivo, e intriga o professor. Neste caso, vale conversar com a criança sobre o desenho, e ao invés de perguntar: “Por que desenhou isso?”, perguntar: “O que este desenho significa para você? Conte-me sobre o que desenhou.”

É muito importante que o educador preste atenção nas imagens que surgem por meio do manuseio dos materiais ao longo das atividades. Estas imagens são expressões do inconsciente da criança, e a infância é a fase na qual a linguagem poética e metafórica expressa-se com mais intensidade, pois neste período da vida o inconsciente manifesta-se sem tanta interferência do ego.

A Arteterapia é um recurso riquíssimo e não deve se limitar ao consultório. Muitas escolas estão se abrindo cada vez mais para uma prática humanizada e sensível de uma Educação Terapêutica, onde a saúde emocional de crianças e educadores possui um valor real e apresenta-se como prioridade. Neste contexto de acolhimento que envolve todos os personagens que compõe uma escola, a Arteterapia adequa-se perfeitamente.

 

Katarine Carvalho é Pedagoga formada pelo Instituto Singularidades, estudiosa da Pedagogia Profunda e das Danças Circulares Sagradas, especialista em Arteterapia pelo IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa e estudante de Psicoterapia Infantil Junguiana pelo Instituto Freedom, atua como Coordenadora Pedagógica na Escola Arte de Ser.