Imagine: a mãe acomoda o bebê em um suporte, para realizar a troca da fralda. O ambiente é tranquilo, silencioso. Só estão os dois ali. Com uma voz suave e carinhosa, ela explica o que irá acontecer e, delicadamente, começa a tirar a roupa da criança. Os olhos se entrelaçam. Enquanto desabotoa o macacão, o bebê interage com sorrisos, alguns sons e movimentos que são enaltecidos pela mãe. Ela o agradece pela colaboração neste momento de troca. Isso acontece quando desveste uma perna e, na sequência, a outra. Entre os dois movimentos, a mãe o acarinha com sutileza. Depois de despido, é hora de tirar a fralda suja – o que acontece com naturalidade, sem expressões ou verbalizações de nojo. Ela mostra o lencinho umedecido e conta ao bebê que irá limpá-lo. E o faz. Depois, mostra a pomada e diz ser importante passá-la para evitar machucados. Ele responde com pequenos movimentos que favorecem os dela. A mãe agradece. Os olhos continuam ligados. Com um lencinho, fino, que apresenta ao bebê, a mãe faz uma higienização do rosto, começando pelas bochechas e estendendo para todas as outras partes. Na hora de recolocar a roupa antecipa, pela fala, cada movimento que será realizado (“vou virá-lo para a direita para vestir o braço esquerdo”) e tudo acontece de forma tranquila, sem pressa.

 

Durante a primeiríssima infância (0 aos 3 anos), é por meio de momentos como este, da troca, que são estabelecidos os vínculos entre o bebê e a mãe ou o adulto de referência. Por isso, é muito importante que tudo ocorra de forma conscienciosa, respeitosa e afetiva. Pode parecer preciosismo, mas essa fase primária da vida irá formar a arquitetura cerebral que não só ajudará a criança a desenvolver habilidades físicas, como também emocionais. A segurança transmitida pelo adulto ao longo dos momentos de cuidado será fundamental para que o desenvolvimento da criança ocorra da melhor forma possível. A neurociência comprova que a carga genética herdada pela criança fornece a base da estrutura cerebral, mas são as experiências que irão moldar o processo que irá determinar se o cérebro terá uma estrutura fraca ou forte para todo desenvolvimento futuro de comportamento, aprendizado e saúde.

 

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Em resumo, quando nascemos, boa parte das nossas conexões cerebrais ainda não aconteceram e é por meio das experiências que elas se darão. Dali serão elaboradas as emoções, habilidades motoras, controle de comportamento, lógica, linguagem e memória. Funciona como na construção de uma casa: os primeiros anos são a base e o que se desenrolará a partir desse período, determinará o que virá depois, ou seja, a vida adulta.

A pediatra e educadora húngara Emmi Pikler, que viveu no início do século XX, dedicou boa parte de sua vida à investigação do universo das crianças pequenas. Tanto como médica de família, como quando assumiu um instituto de acolhimento em Budapeste, ela atendeu a inúmeros bebês e, depois de um estudo detalhado, deu forma à abordagem que leva seu nome e hoje é uma referência nos cuidados e desenvolvimento saudável da primeira infância.

A Abordagem Pikler tem, entre os seus princípios, o reconhecimento do bebê como indivíduo capaz desde o nascimento, a valorização do vínculo afetivo, a liberdade de movimentos e o desenvolvimento da autonomia. Portanto, além da atenção plena e profunda conexão durante a troca, o banho, o sono e a alimentação, o brincar livre em um ambiente preparado é de extrema importância para que, por conta própria, a criança conquiste posturas e desenvolva habilidades em todos os segmentos da vida.

Foi com a finalidade de instrumentalizar mães, pais e educadores de crianças pequenas com o rico material da Abordagem Pikler, que a Omnisciência lançou a Coleção Primeira Infância. Nela, integrantes da Rede Pikler Brasil destrincham os principais conceitos apresentados pela médica húngara e compartilham experiências e ferramentas práticas para o dia a dia de cuidados junto aos bebês.

 

As origens do brincar livre

É por meio do brincar que a criança experimenta o mundo e se desenvolve, por isso ele é tão vital quanto respirar. Neste livro, especialistas na Abordagem Pikler apresentam os principais conceitos para o desenvolvimento integral das crianças: estabelecimento de vínculo, respeito ao movimento livre e autonomia, com foco no brincar. Para isso, sugerem práticas que favoreçam as habilidades inatas dos bebês, como o preparo de um ambiente para a exploração, a seleção e organização dos brinquedos para cada fase e dão dicas sobre a postura do adulto, junto da criança, enquanto a brincadeira acontece.
Quem fez a tradução técnica e respondeu pela publicação do livro foi o Grupo Educar 0 a 3, situado em São Paulo e que tem por objetivo desenvolver consciência quanto ao significado e importância da infância junto a famílias e escolas, “As origens do brincar livre” é um dos poucos títulos em português que traz os conceitos e aplicações da Abordagem Pikler no cuidado de crianças na primeiríssima infância.

 

 

Abordagem Pikler – educação infantil

A abordagem Pikler para crianças de 0 a 3 anos foi desenvolvida pela médica húngara Emmi Pikler que somou a sua experiência de dez anos como médica de família ao trabalho realizado na instituição de acolhimento situada na Rua Lóczy em Budapeste e a observação e o registro minucioso do desenvolvimento de bebês para desenvolver um trabalho profissional de excelente qualidade. Esta abordagem está embasada no cuidado com a saúde física e no respeito com a individualidade de cada criança e tem como princípios fundamentais: a relação privilegiada entre mãe/educadora e bebê e o desenvolvimento da autonomia através do brincar livre. Divulgar a Abordagem Pikler que surgiu como uma prática pedagógica, logo após a II Guerra Mundial (1946), em uma instituição de acolhimento como uma resposta positiva à adversidade é provocar discussões e reflexões sobre as possíveis adaptações dessa abordagem à complexa realidade da educação infantil brasileira. É esse o objetivo desta publicação.

 

 

vínculo, movimento e autonomia

A partir de suas vivências com Formação Continuada de Profissionais de Educação Infantil e de seu envolvimento com a Abordagem Pikler, a autora compartilha com o leitor reflexões sobre o papel do educador de crianças pequenas e os pontos essenciais para promover o desenvolvimento físico, mental e emocional nos primeiros anos de vida, principalmente em ambiente coletivo.
O livro apresenta uma síntese da abordagem que Emmi Pikler construiu durante o período em que atuou como médica de família e diretora de um abrigo de crianças até 3 anos, no final da Segunda Guerra Mundial, em Budapeste. Essa pedagogia baseia-se no reconhecimento do bebê como um indivíduo capaz desde o nascimento, na valorização do vínculo afetivo, na liberdade de movimentos e no desenvolvimento da autonomia.
Neste título estão também presentes: reflexões sobre a consciência corporal do educador, com base na Eutonia – pedagogia terapêutica com aplicação nas áreas da educação, saúde e artes, que auxilia a reintegração da imagem corporal; ideias do filósofo e educador Rudolf Steiner a respeito da importância do movimento, do equilíbrio, do tato e do sentido vital na primeiríssima infância; e experiências de atividades não dirigidas desenvolvidas pela autora em seu espaço de pesquisa, formação e oficinas: o Ateliê Arte, Educação e Movimento.

 

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