*Por Patrícia Couto Gimael

Embora a fome seja um estado somático, uma necessidade fisiológica, comer pode proporcionar não só saciedade, mas também prazer, satisfação e a possibilidade do encontro, do estabelecimento de um vínculo de confiança. Ao alimentar um bebê ou criança pequena, estamos oferecendo também segurança, confiança, aconchego e aprendizado. Fazemos de 4 a 5 refeições por dia que podem ser tanto prazerosas quanto uma triste obrigação ou um tormento terrível.

Por volta dos seis meses, quando a criança deixa de ser alimentada apenas com o leite do peito ou da mamadeira e tem início a introdução aos alimentos, a criança começa a desenvolver o paladar experimentando o que é doce, amargo, azedo, ácido, salgado, etc. E os alimentos também têm cor, cheiro, textura e sabor. Um mundo inteiro de sensações e experiências novas se abrem para os bebês.

Comer de forma independente e civilizada é um dos elementos chave da socialização. Há muitos aprendizados a serem conduzidos pelo adulto nesse processo, são eles: beber utilizando um copo, comer com uma colher, mastigar, não sujar a própria roupa ou a mesa e não perturbar os companheiros.

De acordo com a Abordagem Pikler devemos cuidar para que as transições sejam suaves e não tragam estranhamentos ou dificuldades desnecessárias. Uma das práticas dentro dessa abordagem é fazer a introdução da papinha com a criança sentada no colo, na mesma posição em que o bebê mama. O bebê amamentado no peito ou na mamadeira está acostumado a ser alimentado no colo. E o colo representa calor, intimidade, segurança, contato visual e estar junto, em relação.

Prepare a fruta ou papinha que será oferecida, coloque uma almofada em um dos braços de uma poltrona ou cadeira com braço, apoie bem os pés no chão, o educador (ou mãe) deve acomodar a si mesmo e ao bebê de forma confortável no seu colo, tendo ao lado uma mesa de apoio com o que for necessário. Se a papinha for colocada em uma vasilha funda ou copo fica mais fácil para segurar e oferecer ao bebê.

O bebê pode ser alimentado desta forma até que aprenda a se sentar sozinho, sem nenhum apoio. No cadeirão, muitas vezes a criança se sente presa e obrigada a comer. No colo, ela fica mais relaxada e, geralmente, come melhor.

Segundo a Abordagem Pikler, a forma como a alimentação acontece influencia diretamente na qualidade do relacionamento entre a criança e o adulto. E as aquisições e progressos não deveriam ser medidos pela idade cronológica, mas sim pela possibilidade de adultos e crianças terem bons momentos juntos.

Fatores que colaboram para uma boa refeição:

  • A criança é quem decide o quanto quer comer. A introdução alimentar pressupõe tempo para experimentação. Não é importante a quantidade, mas sim a qualidade.
  • O cuidador de referência. Quem normalmente cuida da criança é a pessoa indicada para fazer a introdução alimentar, pois é quem conhece seus hábitos e gostos
  • Para que tenha sentido e significado a interação não deve ser mecânica ou apressada
  • Não forçar ou impor nada
  • Ouvir e observar o momento certo para propor mudanças ou introdução de novos passos na alimentação
  • A decisão é do adulto, a competência da criança

Para estabelecer um clima de cooperação, nós nos ajustamos ao ritmo e velocidade de cada criança

  • O quanto levantar a colher?
  • Qual o tamanho da porção a ser oferecida?
  • Qual a rapidez com que dar a próxima colherada?
  • Algumas crianças gostam de comer devagar e confortavelmente
  • Outras se tornam impacientes se não recebem o alimento rapidamente
  • A mesma criança altera o seu ritmo de tempos em tempos

Para facilitar o processo, podemos:

  • Aquecer ou esfriar a papinha
  • Diluir com água
  • Tornar mais doce
  • Mudar a ordem na qual a comida é oferecida o Primeiro tomar um pouco de leite na mamadeira o Comer uma fruta ou tomar um suco primeiro
  • Quando a criança ainda não se adaptou à colher, podemos oferecer a papinha em um copo
  • Devemos nos permitir voltar atrás, se for necessário
  • Evitar o que podemos chamar de pseudo-ajuda o Deixar que a criança que ainda não tem habilidade coma sozinha
  • “Mostrar” como se faz pegando a mão da criança e fazendo por ela

Ajudamos quando:

  • Deixamos que a criança experimente
  • Orientamos e mostramos diversas vezes como segurar a colher
  • Ensinamos a não mergulhar muito fundo a colher e a não virar a colher ao contrário quando chega na boca

Quando a refeição acontece muito lentamente e a criança se torna impaciente porque não consegue aplacar a fome, o método das duas colheres pode ser útil. A criança e o adulto usam cada um uma colher e o adulto oferece algumas colheradas entre as colheradas que a própria criança faz.

É melhor oferecer pequenas porções, desta forma a comida se manterá quente e gostosa na panela ou recipiente tampado, aumentando a chance de que o bebê ou criança pequena coma mais e melhor. Normalmente, as crianças comem devagar e a comida acaba esfriando no prato, o que faz com que a criança, muitas vezes, se desinteresse pelo alimento.

Segundo a Abordagem Pikler, jamais deveríamos dar uma colher a mais que não seja aceita com satisfação.

Apetite é o desejo de comer determinado alimento, diferente de fome que é uma necessidade somática. Quando uma criança come com voracidade, com gula, devemos compreender que este é apenas um sintoma que indica alguma frustração, da mesma forma que acontece com os adultos que buscam consolo na alimentação. Regular a alimentação da criança, diminuindo as porções, no entanto, não traz resultados positivos, muitas vezes apenas piora a situação. É necessário investigar e tratar as causas da frustração para eliminar o sintoma.

 

Bibliografia

Association Pikler-Lóczy Budapest 2007 – “Bringing up and providing care for infants and toddlers in an isntitution” Print Bt. Hungary

Associación Pikler-Lóczy de Hungría 2018 – “Claves de la educación Pikler-

Lóczy” – Compilación de 20 artículos escritos por sus creadoras Elena  Herrán (Editora)

 

Patrícia Couto Gimael CRP 06/50090

Psicóloga tem formação Junguiana, em Psicologia ampliada pela Antroposofia e como Aconselhadora Biográfica. Desde 2010 tem participado ativamente de cursos, no Brasil e no exterior, sobre a Abordagem Pikler, consagrada pedagogia voltada para crianças de 0 a 3 anos.

Atende crianças em consultório particular e realiza orientação aos pais desde 1996. Desenvolve, coordena e é docente em projetos de formação continuada para professores da rede pública e privada de ensino com base na Pedagogia Waldorf, no estudo do desenvolvimento infantil, na neurociência e na Abordagem Pikler.

Membro da Rede Pikler Brasil participou da organização de cursos e palestras internacionais em 2015, 2016 e 2017 com a participação de grandes mestras: Anna Tardos, Agnès Szanto, Myrtha Chokler, Isabelle Deligne e Sylvia Nabinger em São Paulo.

Cofundadora do Grupo Educar 0 a 3 que realizou a revisão técnica de dois livros sobre a Abordagem Pikler publicados em português no Brasil pela editora Omnisciência.

 

  • Infância Vivenciada (2013) – Editora Paulinas

  • Estudos e Reflexões de Lóczy (2011) organizado e publicado pela OMEP – Organização Mundial para Educação Pré Escolar
  • O Acolhimento de bebês: práticas e reflexões compartilhadas, publicado pelo Instituto Fazendo História (2014)

Livros sobre a Abordagem Pikler em português