Falamos em rede e, muito possivelmente, pensamos na internet e suas inúmeras ferramentas para interligar pessoas, mas desconhecemos a nossa própria teia: a trama familiar e seus fios invisíveis, que perpassam gerações imprimindo marcas àquele determinado sistema.

Quem somos, de onde viemos, para onde vamos? Para o psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, as respostas podem estar nesse mapa que nos leva aos ancestrais. Sua pesquisa em torno da abordagem sistêmica, em especial da Constelação Familiar, tem aproximadamente 40 anos e diz que muito do que vivemos hoje é a ressonância de um evento do passado. Ocorrido dentro da família.

Como assim?

Para ele, todas as nossas relações são permeadas pelo amor. Mas para que esse sentimento se mantenha fluido (ele chama de ordenado) nos nossos relacionamentos, é preciso atender a algumas leis. Logo, quando as leis não são respeitadas, a desordem é instaurada e, onde há desordem, o amor não pode fluir.

Até que tudo, então, ocupe o seu devido lugar, há sofrimento. E isso pode se estender por gerações.

Por exemplo, muitas vezes reproduzimos padrões de comportamento familiares sem uma certa consciência. É comum que ajamos sob um determinado aspecto como nossos pais, que copiaram os avôs que, por sua vez, se espelharam nos bisavôs, e assim por diante. Por uma questão até de lealdade, reproduzimos o que nos foi passado, ainda que cause dor e, até que alguém da árvore genealógica quebre esse ciclo, o problema continua vivo ali.

É aí que entra a Constelação Familiar, uma ferramenta terapêutica – criada pelo Bert – que “serve para que as pessoas possam ver quais são as origens de disfuncionalidades na sua vida atual, quando elas ocorrem por influência de acontecimentos passados dentro de seu sistema familiar, e resolvê-las”, conta a psicóloga, pedagoga e terapeuta em abordagem sistêmica, Pamela Seligmann.

A Constelação pode acontecer de algumas formas. As mais comuns são aquelas nas quais o constelante (o cliente, digamos assim) e o terapeuta trabalham sozinhos; ou as Constelações em grupo, onde desconhecidos se reúnem para contribuír no processo de cura uns dos outros.

Na prática, uma pessoa leva um problema e, quando em grupo, os participantes são convidados – ora por ela, ora pelo facilitador – a representarem a sua história assumindo o papel de sua mãe, seu pai, seu irmão, seu marido, etc. Na medida em que alguns movimentos vão acontecendo ali no espaço da representação, uma situação – do passado – se descortina e aponta caminhos reflexivos em torno da queixa apresentada no início.

Em princípio, tudo parece um teatro, mas aquele que representa um membro da família, acessa o campo do representado de tal forma que passa a se comportar como ele. “A pessoa manifesta imagens que nem ela mesma conhecia. É um fenômeno que passa pelo corpo”, complementa Pamela.

Pode ser que, em alguns casos, o constelante não consiga entender – de imediato – o que lhe é mostrado, mas a alma absorve. E, mais adiante, o que foi feito ali tomará uma forma mais visível aos seus olhos.

Quais são as leis que regem a ordem do amor, Pamela?

  • “A lei de pertencimento diz que todas as pessoas de um sistema têm o direito de pertencer, independentemente do que fizeram. Todos os que têm vínculo de sangue, pertencem, assim como os que têm vínculo de destino – aqueles que impactaram o destino em direção à vida ou à morte em uma família. Exemplos: um assassino, um doador de uma herança.”.
  • Lei de hierarquia: “Os que vieram primeiro, estão primeiro. Os segundos, em segundo lugar, e assim sucessivamente.”. Sabe aquela história de a mulher assumir o lugar de mãe do marido? Ou dos filhos serem pais dos próprios pais? A inversão de papeis desordena.
  • Por fim, há a lei de equilíbrio, que – nada mais é – do que “o equilíbrio entre o dar e o tomar nas relações. Se damos muito, nos esgotamos. Se tomamos muito, esgotamos alguém.”.

 

Pedagogia Sistêmica

O que será que tudo isso que foi dito aí em cima tem a ver com o ambiente escolar?

Muitas são as reclamações, sobretudo dos professores, de comportamentos desafiadores dentro da sala de aula. E lidar com os alunos responsáveis por eles pode ser bem difícil. Sobretudo porque, geralmente, o educador olha para aquela criança/jovem e sua família apenas pelo que lhes falta, criando uma barreira que mina a empatia.

Baseando-se no trabalho de Hellinger, Marianne Franke Gricksh, Angelica Olvera e Alfonso Malpica deesenvolveram o olhar sistêmico no âmbito escolar, chamado de “Pedagogia Sistêmica”, que objetiva criar, a partir da escola, um ambiente de inclusão onde todos possam assumir os seus papéis, levando em conta os sistemas familiares, educativos e institucionais.

Respeitando aquelas leis mencionadas antes, sabe?

Hoje, na Universidade do México, há um curso de pós-graduação sobre o tema e, sobretudo no Brasil – com o boom das Constelações Familiares – pessoas da área da educação têm se interessado cada vez mais pela aplicação dos conceitos do psicoterapeuta alemão no ambiente escolar.

“Pedagogia Sistêmica é olhar para o aluno inserido em um sistema familiar e saber que ele  vem à escola com seus antepassados e com suas situações familiares atuais.”.

Pamela Seligmann

Vamos a um exemplo prático: Uma situação comum de acontecer na escola é a de a instituição atribuir à família a culpa pelo baixo rendimento do aluno: “Também, com pais como aqueles o que ele faz é justificável…”, etc.

A perspectiva muda, completamente, quando a visão sistêmica entra em jogo, pois ela possibilita que a criança/jovem seja vista(o) dentro de um contexto familiar, com características particulares desse sistema. Olha só como isso é importante:

“Uma das leis da visão sistêmica é a LEI DE PERTENCIMENTO. Ou seja, a criança PERTENCE a seu sistema familiar. Se o professor vê a família como um obstáculo para a aprendizagem do aluno, a alma do aluno se oporá à escola, pois sua lealdade à família impedirá que ele esteja na escola sentindo que pertence a ela.”, conta Pamela.

Também é frequente que os professores tomem o lugar dos pais para protegerem a criança/jovem. Isso quebra as leis de pertencimento e de equilíbrio. Situações que, como vimos antes, causam desordem e afetam todos.

O que, então, professores, coordenadores, diretores, podem fazer para aprimorar esse olhar mais abrangente e inclusivo? Pamela: “Há inúmeras maneiras. Uma delas, é o professor chamar a família de um aluno que manifesta alguma desordem para uma conversa, entender quem são eles e o que pode estar por trás do comportamento desafiador da criança/jovem. Outra, que já vi acontecer, é a do educador constelar a situação do aluno, como nesse caso aqui:

Uma criança não queria ir à escola. Quando entrava no lugar, esperneava, chorava muito. Não havia nenhuma razão externa (bullying, por exemplo) que justificasse essa atitude. A professora, então, levou a situação a uma Constelação Familiar em grupo e o que se constatou ali é que havia uma discordância entre os pais com relação à escola que deviam colocar o filho. Prevaleceu a sugestão da mãe, o pai se opunha.

A instituição de ensino, sabendo disso, só convidava a mãe para reuniões ou encontros e o menino, ao acessar aquele lugar, se sentia extremamente desconfortável por, em alguma medida, estar indo de encontro à posição do pai.

Importante: a criança não precisa ver, ouvir, para saber o que se passa. A alma sabe.”.

Um exemplo bem-sucedido, agora, de um educador admirável, inspirador. Uma experiência pessoal da Pamela: Argentina, ela estudou em um colégio durante a ditadura militar. Talvez você já possa imaginar a rigidez que havia ali. Mas o que mais a incomodava era que a escola não via os alunos em suas particularidades. Todos faziam parte da massa. Eram números.

Um dia, aconteceu de uma professora de história perceber que o rendimento dela tinha caído. Foi lhe perguntar, então, se tinha acontecido alguma coisa. Ela respondeu: “sim, meus pais se separaram.”. A professora, então, a convidou para conversar fora da escola. Isso aconteceu. E, durante o encontro, ela compartilhou com a Pamela uma situação pessoal: a sua própria separação e as implicações disso na família dela.

Essa professora, que depois foi demitida por não se alinhar à filosofia da escola, desconhecia a Pedagogia Sistêmica. Até porque ela sequer existia. Mas soube lidar com aquela situação de uma forma afetiva e respeitosa, porque enxergou além. “O que eu recebi foi um acolhimento”, diz Pamela, e complementa: “Mais importante do que as ferramentas relacionadas à Pedagogia Sistêmica, é focar no olhar.”. O olhar que de fato vê. E, não, julga.

Enfim, um educador que esteja realmente interessado em estabelecer um vínculo com o aluno, ainda que ele seja bastante desafiador, desenvolve uma capacidade de transpassar os limites das quatro paredes de uma sala de aula e alcançar o que de fato justifica o seu mal comportamento, promovendo uma educação integral – porque ela fala mais fundo. E, principalmente, o respeita e acolhe, com tudo o que ele traz junto .

Pamela Seligmann é fundadora da Casa Firmamento, que  oferece cursos, palestras, vivências, processos psicoterapêuticos e de coaching. Para saber mais, clique aqui: http://www.casafirmamento.com.br/

Livros de Bert Hellinger em português: https://bit.ly/2kvpaem

Carolina Conti
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