*Por Celso Antunes: http://grandeencontrodaeducacao.com.br/crianca-indisciplinada.html

Crianças ou mesmo adolescentes indisciplinados existem em toda parte.

No Ocidente e no Oriente, mas o que difere, e muito, na eventual comparação entre nós e eles é o sentido em que se emprega o conceito de indisciplina. No mundo ocidental, tanto no lar como na escola, a criança indisciplinada é geralmente aquela que não se porta como os padrões do que se convencionou designar de “boas maneiras”. Assim, a falta de modos, o desrespeito aos mais velhos, o sentimento de egoísmo que revela e, sobretudo, a forma como se apresenta e comporta no ambiente social, físico ou virtual, caracteriza a indisciplina.

Na parte do mundo considerada Oriente, particularmente, no caso da Coreia do Sul e do Japão, a ausência de boas maneiras também é denominada de indisciplina, mas não como a causa comportamental em si, mas consequência de uma “disciplina interior” bem mais rígida e que leva em conta a autodisciplina, a poder de autocontrole emocional e, portanto, comportamental. A criança que não revela boas maneiras o faz porque não é portadora de uma disciplina interior e que envolve, principalmente, o domínio de si mesmo, o controle das emoções, a força de vontade de uma renúncia e, sobretudo, a magnânima resiliência de manter a serenidade interior, mesmo que sejam imensas as pressões e as circunstâncias. Dessa maneira, uma criança ou um adolescente nesses países é educado para desenvolver uma severa disciplina interior e esta, entre inúmeros outros reflexos, implica também em ter boas maneiras. Desta maneira, por exemplo, uma criança ocidental e que por questões de saúde deve evitar ingerir doces e não resistindo a tentação o faz, é “bem educada” se compartilha ou pelo menos oferece um pedaço desse doce aos presentes. Em verdade, sua autodisciplina é nula e os riscos inevitáveis, mas nada disso é socialmente considerado porque importa pouco a disciplina interior e prevalece o comportamento exterior.

Mas, nem no Ocidente e também no Oriente as crianças nascem com essas características, uma vez que autodisciplina é, e sempre será, uma questão de educação. Se uma criança, no lar e na escola e desde pequenina for ajudada a superar suas pequenas frustrações, conter seus ímpetos, dominar sentimentos emocionais egoístas e cultivar sua resiliência e, verificar em quem as ensina, o valor que a essas condutas atribuem, crescerão socialmente bem educadas, mas pela vida inteira carregarão dentro de si uma força íntima que causa admiração e apreço neste país e em qualquer parte.

Celso Antunes é autor de dezenas de obras sobre temas educacionais. Seus livros, publicados pelas maiores editoras brasileiras e traduzidos na América Latina, na América do Norte e na Europa, constituem importante referência para pais e educadores. Foi professor e diretor de escolas de ensino fundamental e médio, lecionou em escolas públicas e particulares e foi mestre em cursos de especialização e pós-graduação. É sócio-fundador do Movimento “Todos pela Educação” e consultor em Educação da Fundação Roberto Marinho (canal Futura).