*Por Patrícia Couto Gimael

O desenvolvimento da vocalização e da palavra é um estudo multidisciplinar que envolve pedagogos, psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos e fisioterapeutas.

A linguagem é um arranjo cultural sistemático de símbolos com significados que permitem que nos comuniquemos sobre coisas que não são visíveis e sobre aquilo que está no passado ou no futuro. Trata-se de uma convenção coletiva e atual que expressa uma forma de pensar e de se relacionar com o mundo e com as pessoas.

Os animais possuem um aparelho psíquico, tem sentimentos. Se expressam através de sons, movimentos e gestos. O ser humano além de possuir o aparelho psíquico, possui também o aparelho linguístico que o capacita a estabelecer a comunicação oral e consequentemente a escrita.

Os órgãos vitais que servem para respiração e alimentação também servem para a fala. São eles pulmão, faringe, laringe, traqueia, esôfago, boca, dentes e lábios. Sendo que a respiração e alimentação são necessidades básicas, mas a fala ou comunicação estão ligadas à vontade, ou seja, ao desejo. O ser humano pode viver sem falar.

A comunicação pré-verbal, que acontece antes da aquisição da fala, se desenvolve na parte direita do cérebro (nos destros). A comunicação pré-verbal acontece através da linguagem corporal e expressão facial e está ligada ao afeto. Esta comunicação é analógica. Sendo que a comunicação pré-verbal é pré-requisito para o desenvolvimento da comunicação verbal que é digital.

Aquele que não compreende um sorriso não entenderá um discurso

Mário Quintana

A linguagem é ao mesmo tempo analógica e digital, sendo que a linguagem verbal, digital, se desenvolve no lado esquerdo do cérebro. Esta linguagem pode ser recortada, dividida em frases, palavras ou sílabas.

A linguagem não verbal, analógica, é desenvolvida no lado direito do cérebro, sendo que não pode ser dividida e expressa sentimentos.

A linguagem também é uma forma de vínculo é uma construção conjunta entre criança e adultos. A linguagem se estabelece na relação, no contato com a linguagem do outro. Ao se amamentar o bebê descobre o prazer da relação, sendo que a linguagem é uma forma de prazer compartilhado que se enraíza no corpo e na relação.

A linguagem precisa de motricidade, pois acontece através do movimento dos lábios, língua, boca e gestos. Mesmo bebês muito pequenos, recém-nascidos, já são reativos à linguagem e ao ritmo da fala, entonação, altura e gesto por traz da fala, isto é, a prosódia. Sentimentos e intenções são captados pelos bebês e crianças pequenas.

Para colaborar no desenvolvimento da fala, fale com os bebês muito antes deles começarem a falar. De que forma? Alguns exemplos:

  • Fale de forma adulta e real
  • Descreva o que está acontecendo no momento e informe o que acontecerá em seguida
  • Valorize e responda a toda e qualquer intenção de comunicação
  • Faça perguntas simples, de fácil entendimento:

o Você quer um pedaço de maçã ou um pedaço de banana?

o Você viu um cachorro no jardim, não foi?

o O que você viu durante a caminhada?

  • Descreva a situação que a criança está vivendo ou acabou de viver o Você está se divertindo com este brinquedo, não é mesmo?

Atrasos ou dificuldades com a fala podem ocorrer quando há dificuldades para simbolizar, para compreender e entrar no código. Algumas causas:

  • Autismo
  • Quando a criança é muda
  • Dificuldades auditivas ou surdez

Mães deprimidas induzem atrasos importantes de fala e de linguagem na criança, pois a reação do adulto em relação à fala da criança pode dificultar o desenvolvimento da fala, como por exemplo quando ocorrem tentativas de comunicação da criança que não são percebidas ou estimuladas.

Mas, o contrário também pode ser prejudicial, isto é, quando os adultos responsáveis interpretam e respondem muito prontamente, não dando tempo para a manifestação da criança, ela não tem necessidade de falar e não treina a vocalização dos fonemas e palavras.

A língua está atrelada à cultura e influencia nossa vida de modo imensurável. Bebês e crianças aprendem a língua em contextos naturais quando alguém fala com eles, reage ao que eles dizem e presta atenção em sua fala. A língua influencia o modo como eles percebem o mundo, organizam suas experiências e se comunicam com outras pessoas

Janet Gonzalez-Mena

O bebê ou criança pequena desenvolve a linguagem quando percebe que a comunicação pode mudar alguma coisa, quando é criado um contexto de cumplicidade. A aquisição da linguagem não é simplesmente a aquisição de uma função, mas verdadeiramente a formulação de todo um mundo inter-relacional, a instauração de uma ponte entre os objetos internos e externos, entre eu e o outro que ajuda a estabelecer o sentido de si mesmo.

Do nascimento aos 8 meses

Aspectos

  • Bebês se comunicam inicialmente informando suas necessidades e gradativamente estabelecem trocas prazerosas com os seus cuidadores;
  • Move os lábios e sorri;
  • Gorjeia;
  • Balbucia;
  • Está atento à palavra;
  • Responde através de gestos

Sinais de Alerta

  • Falta de interesse pelo contato social;
  • Evita o contato visual;
  • Mantém o corpo rígido
  • Falta de reação à voz humana e a outros sons

Dos 6 aos 18 meses

Aspectos

  • Bebês que se movem fazem prazerosamente experimentos com a linguagem e se comunicam com claro propósito;
  • Utiliza palavras ou gestos;
  • Repete palavras recém-aprendidas e as utiliza sempre que pode;
  • “Compreende” durante os cuidados;
  • Executa orientações verbais;
  • Gradativamente começa a usar frases de duas palavras

Sinais de Alerta

  • Crianças mudas balbuciam quando são bem pequenas, mas param entre 8 e 9 meses;
  • Não demonstra interesse em interagir em ambientes conhecidos com objetos ou pessoas;
  • Não segue com o olhar o que foi apontado (entre 9 e 10 meses);
  • Não oferece, mostra ou aponta objetos (entre 11 e 12 meses);
  • Não brinca de “Cadê? Achou!”

Dos 16 aos 36 meses

Aspectos

  • O número de palavras aumenta rapidamente e começa a utilização de uma gramática simples;
  • Utiliza frases curtas;
  • Gradativamente, as frases vão ficando mais complexas;
  • Compreende noções de tempo e passa a utilizá-lo na sua fala (ontem, hoje e amanhã);
  • Passa a utilizar o pronome eu;
  • Passa a falar corretamente

Sinais de Alerta

  • Usa 25 palavras ou menos (aos 24 meses);
  • Aos 36 meses, a criança tem:

– Vocabulário limitado;

– Usa apenas frases curtas e simples;

– Mais erros gramaticais que os pares;

– Dificuldades para falar do futuro;

– Não entende a maioria das perguntas;

– Não é compreendido pela maioria;

– Poucas formas de interação social;

– Dificuldades para conduzir uma conversa

 

Bibliografia:

GOLSE, Bernard, & COHEN-SOLAL, Julien – “No Início da Vida Psíquica: O desenvolvimento da Primeira Infância” Editora Piaget

GONZALEZ-Mena, Janet & EYER, Dianne Widmeyer– “O cuidado com bebês e crianças pequenas na creche: um currículo de educação e cuidados baseado em relações qualificadas” AMGH Editora Ltda. 9º Edição. Porto Alegre, 2014

 

Patrícia Couto Gimael CRP 06/50090

Psicóloga tem formação Junguiana, em Psicologia ampliada pela Antroposofia e como Aconselhadora Biográfica. Desde 2010 tem participado ativamente de cursos, no Brasil e no exterior, sobre a Abordagem Pikler, consagrada pedagogia voltada para crianças de 0 a 3 anos.

Atende crianças em consultório particular e realiza orientação aos pais desde 1996. Desenvolve, coordena e é docente em projetos de formação continuada para professores da rede pública e privada de ensino com base na Pedagogia Waldorf, no estudo do desenvolvimento infantil, na neurociência e na Abordagem Pikler.

Membro da Rede Pikler Brasil participou da organização de cursos e palestras internacionais em 2015, 2016 e 2017 com a participação de grandes mestras: Anna Tardos, Agnès Szanto, Myrtha Chokler, Isabelle Deligne e Sylvia Nabinger em São Paulo.

Cofundadora do Grupo Educar 0 a 3 que realizou a revisão técnica de dois livros sobre a Abordagem Pikler publicados em português no Brasil pela editora Omnisciência.

Coautora das seguintes publicações:

  • Infância Vivenciada (2013) – Editora Paulinas

  • Estudos e Reflexões de Lóczy (2011) organizado e publicado pela OMEP – Organização Mundial para Educação Pré Escolar
  • O Acolhimento de bebês: práticas e reflexões compartilhadas, publicado pelo Instituto Fazendo História (2014)

Livros sobre a Abordagem Pikler em português