Quer maneira melhor de celebrar a vida do que valorizar a história de alguém que a gente ama? Olha só que ideia bacana da arte-educadora Cris Mendes: levar a festas infantis uma contação de história baseada na vida do aniversariante. Vale tudo, da graça à emoção, para presentear o protagonista com o valioso senso de pertença e importância (fundamental para um desenvolvimento infantil saudável). A família toda – que lhe pautou com antecedência, e amigos, também se divertem revendo os passos, aventuras e “artes” dos primeiros anos de vida da pequena figura. É encantamento de sobra: alegria, choro, partilha, amor. Muito amor!

A Cris conversou com a gente e dividiu um pouco desse trabalho tão sensível.

Confira a entrevista!

“O que for feito com a criança não durará apenas o instante imediato, mas a vida toda” 

Rudolf Steiner

Cris Mendes

Blog: Pode nos contar um pouco das fontes que te inspiraram nesse projeto?

Cris: Quando fui fazer o seminário de pedagogia Waldorf, logo nos primeiros dias, fizemos uma vivência onde todos, após muita escuta, partilhavam a história do outro. Isso me marcou profundamente e me reportou a um lugar em minha infância quase esquecido: os recreios na escola onde estudei eram preenchidos com as histórias de vida dos meus amigos e isso me fascinava.

No mesmo período que fiz o seminário, eu trabalhei em uma escola que em suas práticas diárias se inspirava muito na Waldorf e foi lá que contei “pela primeira vez” (profissionalmente) uma história de vida. Contar a história de uma criança (de alguém) faz com que entremos em sua vida de forma muito singular e nos permite partilhar com todos as alegrias, as conquistas e gracinhas dos primeiros anos de vida. Traz uma atmosfera de encantamento, emoção e pertencimento.

Antes disso trabalhei no Galpão do Circo, na Cooperação Criativa, que é um núcleo artístico multidisciplinar que desenvolve propostas em arte- educação para crianças de quatro a oito anos. Lá, as atividades misturam a contação de história, brincadeiras tradicionais e artes plásticas. As crianças vivenciam as atividades físicas/ circenses como se estivessem dentro da história numa grande aventura de faz de conta. Um sonho de magia e cor! Foi a partir desse momento que “meus olhos viraram” e fui buscar outras referências que pudessem compor esse momento. Fui estudar no Instituto Brincante e lá conheci a Cris Velasco – que é uma contadora de história que me inspira muito – a Peo – que é fundadora da Casa Redonda (escola pra viver poesia) -, o Adelsin – que é “mininu crescido”, a Lydia Hortélio – que canta as cantigas de nossas crianças. Conheci a Renata Meirelles – que é pesquisadora do brincar – e também fiz curso de brincadeiras tradicionais da infância com ela. Entrei em contato com o lindo trabalho da Regina Machado – grande contadora de história, seus saravaus e o Boca do Céu – que é um festival internacional de contadores de histórias. Quando se frequenta o Boca do Céu, o mundo Celestial se abre! É como ganhar um par de asas extras!

Blog: Como é para a criança rever a sua história? Qual é a importância dessa narrativa?

Cris: Mando para a mãe uma história inicial que conta a aventura de uma criança que queria conhecer os segredos e mistérios do outro lado do rio e realiza essa travessia com a ajuda de um barqueiro.

Nessa travessia a mãe tece as linhas que compõem essa história. Normalmente abro a narrativa com uma música e quando a criança se reconhece é uma mistura de sentimentos. Primeiramente vem uma longa tomada de ar, às vezes choro, noutras a procura do abraço da mãe e do pai e sempre muito riso.

Essa narrativa traz um grande sentimento de valorização e pertencimento. Ouvir a própria história sendo narrada na boca de outra pessoa traz alegria. A criança sente o acolhimento e todo o Amor que envolve esse momento contagia todos os convidados. Contar é deixar o coração falar.

Histórias que encantam vidas

Blog: Pode nos contar algum caso especial que aconteceu nesse trabalho que te emocionou?

Cris: Certa vez, uma mãe teve que mudar a data do aniversário, pois estava grávida e precisou repousar. Nesse ínterim trocamos muitos e-mails e uma relação de muito carinho se iniciou com essa partilha. Quando ela começou a trabalhar em cima da história do seu filho me contou que era uma narrativa nada convencional. Leio a história e me pergunto:

– Como vou contá-la?!

A mãe narra de forma extremamente sensível, poética e engraçada a trajetória de superação, coragem e força do seu pequeno que ao nascer teve que ficar um período na UTI, pois nasceu com as artérias trocadas.

A mãe fazia analogia com uma música do Chico Buarque, dizendo:

– Esta era uma criança especial! Ela tinha tanto, mas tanto Amor em seu coração que seus vasos cresceram trocados de lugar. Como diz a letra:

“É no coração dos que amam demais que o sangue se perde nas veias”.

Haja, coração!!

Foi forte e muito emocionante. Na festa, estavam presentes as pessoas (médicas e médicos) que cuidaram do pequeno guerreiro da vida. Todos ficaram bem emocionados, inclusive eu!

Blog: Como sente a reação dos outros membros da família, sem ser os pais, quando recebem essa história?

Cris: Sinto que os laços de Amor que permeiam a teia do milagre da Vida abraçam carinhosamente todos os envolvidos. Cada um que escuta o seu nome é tocado graciosamente por essa magia.

 

Acesse a página da Cris no facebook: Histórias que encantam Vidas – Cris Mendes – https://www.facebook.com/historiasqueencantamvidas/