Aos 28 anos, Maria Montessori apresentava sua tese no Congresso Médico Nacional de Turim, na Itália, sobre como o atraso apresentado pelas crianças portadoras de distúrbios de comportamento e aprendizagem tem por base a ausência de estímulos, quando um médico se levantou e fez a seguinte pergunta: “Por que a senhora se preocupa com estas crianças? Não sabe que elas não podem aprender?”. Montessori respondeu: “Elas podem. São os senhores que não permitem”.

Nascida na Itália, em 1870, essa médica e educadora – em mais de meio século de atividade – rompeu inúmeros paradigmas e levou a países ao redor do mundo um método que se perpetua até os dias de hoje, onde o foco do aprendizado está centrado na observação atenta e amorosa da criança, de modo a favorecer o desenvolvimento de suas habilidades.

Montessori assistiu a duas guerras mundiais e experimentou, na própria pele, a dureza de regimes totalitários como o fascismo: Mussolini opunha-se aos seus ideais mais libertários, por isso ela teve de imigrar a outros lugares da Europa para dar continuidade ao trabalho. À época, todas as escolas na Itália que adotavam o seu método foram fechadas. O cenário violento, no entanto, reforçava ainda mais os seus propósitos: “a humanidade só pode progredir se dedicar às crianças uma educação que leve à paz, à autoconsciência, à conexão e à liberdade”, dizia.

Adulto e criança – Uma guerra dentro de casa

Costumamos nos aterrorizar com grandes conflitos e, muitas vezes, nos esquecemos daqueles que acontecem diariamente, até mesmo debaixo do próprio teto. Para Montessori, todas as guerras derivam de uma primeira, entre o adulto e a criança (no lar ou na escola). Isso se dá quando o mais velho se coloca em uma posição superior e atribui à criança a impossível tarefa de atender às suas expectativas.

Para que a criança se desenvolva integralmente, de forma saudável, porém, ela precisa de liberdade, um ambiente preparado, estímulos apropriados e – sobretudo – respeito à sua temporalidade. Além disso, é preciso que o cuidador esteja aberto para conectar-se com ela e compreendê-la. O que o adulto faz, geralmente, é exatamente o contrário: embotar todas essas possibilidades e dirigir, de forma arrogante, as suas ações, minando as capacidades de criação que lhe são inatas. Isso acontece, por exemplo, quando se faz por elas o que dariam conta de fazerem sozinhas: cuidados com o corpo, de higiene, alimentação, e tantas outras ações que atropelam os seus processos individuais de descobertas e desenvolvimento da autonomia.

 Educando para a Paz

Maria Montessori

Para Maria Montessori, educar para a paz não é simplesmente transmitir informações, de forma verticalizada, mas sim transformar-se como adulto para respeitar a criança em sua individualidade. A compreensão das necessidades de vida dela são, para a educadora, o verdadeiro elo entre a educação e a paz. Para isso, é importante:

– conhecer a criança: identificar suas características, seu potencial, suas necessidades. Ter a certeza de que ela aprende fazendo;

– criar um ambiente estimulante, adequado à criança que nele trabalhará e que favoreça o maior número possível de conquistas;

– proporcionar recursos de atividades de aprendizagem que incitem a curiosidade.

Após a Segunda Guerra Mundial, Maria Montessori participou de uma série de conferências sobre educação para a Paz. Em 1949, lançou o livro “A Educação e a Paz”, cujos princípios continuam atuais e urgentes, como se lê no prefácio da edição francesa:

“Mudar a representação do mundo, construir a fraternidade mundial das crenças, aprender a interdependência que nos une e a diversidade que nos enriquece, aprender a responsabilidade: tudo isso se faz na educação”

– Maria Montessori


Fontes:

Lar Montessori

Jardim do Mundo


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