Uma cena típica, e emocionante, dos que convivem com crianças pequenas é aquela em que o bebê ensaia seus primeiros movimentos em pé, equilibrando-se sobre duas perninhas cambaleantes. Seus olhos vagam meio perdidos entre o chão e a frente, uma perspectiva completamente diferente da que conhecia até então, quando tudo era como o céu, ficava acima, ou – um pouco mais adiante – quando o bumbum lhe dava alguma estabilidade para conhecer o mundo ao seu redor na posição sentada. Agora, ele precisa adequar os seus pés numa nova função: a de sustentáculo do corpinho, em conjunto com a postura correta das costas, que lhe darão o equilíbrio para que se mantenha assim sem ir ao chão. Não é uma tarefa muito simples. É um treino.

Mas os primeiros passinhos são muito esperados pelos que o rodeiam. Por tudo o que representam: uma nova etapa de desenvolvimento, o que significa “boa saúde” e, já, um ensejo de sua nova forma de se portar no mundo; a de um caminhante, alguém que começa a tecer a própria trilha a partir do desejo simples de movimentar-se. Com o intuito de auxiliá-lo nessa função desafiadora, geralmente, não muito distante do bebê há um adulto de referência, com os braços esticados, a coluna curvada em sua direção, um olhar convidativo enquanto a boca pronuncia: “vem, meu amor”.

Os dois estão rodeados de pessoas queridas que querem presenciar este momento tão importante na vida da criança. Que não resiste. Tenta a todo custo atender ao chamado, afinal, não quer desapontar aquele que lhe traz segurança e acolhimento. Acontecem alguns ensaios, ela desequilibra, cai algumas vezes, enquanto todos assistem torcendo pelo “desfecho feliz”: que o filho vá até o pai caminhando por conta própria.

Quem não viveu isso diretamente, desempenhando algum desses papeis, certamente já presenciou algo nesse sentido e o motivo é simples: está encrustada em nossa cultura uma certa expectativa no que se refere ao desenvolvimento nos primeiros anos de vida. Há uma espécie de cartilha transmitida por gerações dizendo que o pai, a mãe, ou quem lida diretamente com a criança precisa estimulá-la para que cresça de forma saudável.

A partir da sua pesquisa formal com mais de 800 crianças num abrigo para órfãos no pós-guerra de Budapeste, além da ampla experiência como médica de família, a húngara Emmi Pikler apresenta uma nova perspectiva sobre o tema. Ao observar os bebês desde o primeiro respiro, ela constatou que muito embora o adulto tenha uma função importante no processo de desenvolvimento infantil, ele tem de se portar como coadjuvante, apenas favorecendo o ambiente para que – com autonomia, a seu ritmo – a criança vá conquistando novas etapas, como essa de caminhar.

“Emmi Pikler mostrou, em seu livro Mover-se em Liberdade, que o desenvolvimento motor se produz de modo espontâneo, mediante a atividade autônoma do bebê, em função da maturidade orgânica e nervosa. Ou seja, as crianças com boa saúde física e psíquica passam por todas as etapas de ampliação da motricidade por sua própria conta e em determinada ordem, sem que os adultos precisem ensiná-las a se sentar, a engatinhar ou mesmo a andar. Não é bom adiantar nenhuma fase, nem colocar a criança em uma posição que não tenha sido conquistada por ela mesma.”

A rede

Pesquisas da neurociência apontam que a configuração do cérebro infantil acontece a partir de uma combinação genética, herdada, em conjunto com as experiências vivenciadas. Quando nascemos, a maioria dos 100 bilhões de neurônios ainda não estabeleceu as sinapses, ou seja, eles não estão funcionando em rede. Na medida em que a criança cria um vínculo com os adultos, é que ela desenvolve a segurança necessária para experimentar o mundo e tecer essa trama cerebral.  

E o que acontece nesta primeira etapa é fundamental para a formação do Ser:

“As sinapses neurais produzidas nos três primeiros anos de vida modelam o cérebro em relação à motricidade, à psique, à aprendizagem e às experiências afetivas e amorosas, que são resultantes das interações. Dessa forma, as experiências vivenciadas pela criança pequena, sejam positivas ou negativas, e as condições afetivas, materiais, sociais e culturais são determinantes para a maturação, a saúde mental e a expressão de suas potencialidades e competências.”

Diferentemente do que pensamos, ou fomos sugestionados a pensar, não é necessário estimular a criança de forma mecânica para que adquira habilidades para as quais não está amadurecida. Mais interessante é propiciar um ambiente calmo, iluminado, para que ela possa explorar livremente atendendo às suas próprias necessidades e a partir do seu ritmo particular. “Atividades de treinamento podem render habilidades que seriam conquistadas mais adiante e inibem o ato de criação genuína, que expressa a originalidade de cada sujeito.”

Ritmo

Emmi Pikler, por suas observações, considerava equivocadas as tabelas médicas de desenvolvimento infantil pelo fato de taxarem – a partir de uma escala extremamente engessada – cada etapa da vida da criança. Um dos pilares de sua abordagem é o reconhecimento do ritmo pessoal do bebê e uma relação construída a partir daí; na medida em que o adulto de referência se conecta profundamente com a criança e favorece o ambiente apresentando condições para que ela se desenvolva dentro do campo de seus interesses. A partir do estudo no abrigo em Budapeste, ela criou uma outra tabela, onde o tempo das conquistas se dá de forma mais plástica.

É importante ressaltar que o ser humano é bípede. Se não houver nenhuma limitação fisiológica, em algum momento ele se colocará em pé. Mas isso não acontece de uma hora para outra, é o resultado de um longo processo que começa no nascimento: “A conquista espacial se dá a partir da horizontalidade, com a base de sustentação corporal ampla e o centro de gravidade mais próximo do solo, avançando em crescente dificuldade em direção à verticalidade, elevando, a cada etapa, o centro de gravidade e diminuindo a superfície de sustentação, até se restringir à sola do pé.”

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Vínculo

Qual é, então, o papel do educador nesse processo de transição para a marcha, a caminhada? O primeiro e fundamental é o de estabelecer um vínculo afetivo de modo a olhar para a criança como alguém ativo desde bem pequeno, com desejos e habilidades. Depois, é importante preparar um espaço convidativo à exploração, com condições que deem à ela segurança para fazer isso livremente. “Partindo do princípio de que as crianças se desenvolvem com mais equilíbrio e harmonia de movimentos quando podem se movimentar livremente, comprovado pelas pesquisas de Emmi Pikler, é preciso confiar na capacidade e autonomia do bebê, aceitando cada etapa e oferecendo condições para que, por meio de seus atos independentes, a criança possa vivenciar sua competência.

Ao tentar fazer um movimento por iniciativa própria e não conseguir, a criança tende a recomeçar ou tentar de outra maneira. Assim, suas experiências permitem o aprimoramento contínuo de posturas ou movimentos anteriores e a capacitação para novas conquistas.

Do ponto de vista emocional, as experiências motoras significam uma fonte de prazer, de satisfação e provocam o sentimento de competência, que vai influenciar positivamente o presente e o futuro da criança. Percebendo-se capaz, arrisca-se em novas aventuras e insiste em recorrentes tentativas, até realizá-las. O olhar e os comentários do adulto de referência evidenciam a aquisição e legitimam esta satisfação.

Um dia de festa

Imagine: Depois de meses experimentando objetos de cores, texturas, e formas diferentes no chão, primeiro acompanhando tudo com os olhinhos, depois movimentando os braços e as perninhas para alcançá-los, ela se virou de bruços. Foram mais alguns dias até  alternar arrastar-se pelo chão e começar a engatinhar. Depois, intercalava o engatinhar e o sentar. Uma fase que durou meses. Daí, numa tarde, ela sentiu vontade de apoiar-se na cadeira da sala e – pela primeira vez – colocar-se de pé. Fez isso repetidas vezes. Nas primeiras tentativas, caía. Mas insistiu. E quando já tinha se acostumado com a postura, o novo campo de visão, e adquirido segurança sobre os dois pezinhos, ela resolveu dar os primeiros passos. O ambiente, tranquilo e acolhedor que a rodeava, facilitou tudo e assim, após um processo respeitoso em que a criança não foi distraída dela mesma para atender aos anseios de outra pessoa, uma nova etapa em sua vida começou. Um largo sorriso de poucos dentes, que irradiou pela sala, traduziu a sua alegria pela nova conquista adquirida.

 

“É crucial que a criança descubra por si mesma tanto quanto possível. Se a ajudamos a finalizar cada tarefa, a estamos privando do mais importante aspecto de seu desenvolvimento. Uma criança que consegue as coisas por meio da experimentação independente adquire um tipo de conhecimento completamente diferente daquela criança para a qual são oferecidas soluções prontas”

                                                                                                                                                           Emmi Pikler

 

Os trechos entre aspas foram extraídos do livro:

vínculo, movimento e autonomia

 

Outros títulos em português sobre a Abordagem Pikler:

Abordagem Pikler – educação infantil: https://goo.gl/e95LPT 

As origens do brincar livre: https://goo.gl/XQDpbS