Você já parou pra pensar no lugar do silêncio na vida das crianças de hoje? É tanta informação chegando pelos ouvidos – e não só – que parece não haver intervalo para algo de extrema importância, sobretudo nos primeiros anos: a escuta de si mesmo. Ouvir os barulhinhos que faz o intestino, a boca quando mexe, o nariz enquanto inspira, pode parecer bobagem, mas é um exercício fundamental de autopercepção e conhecimento. Ele ajuda a traduzir ao bebê, em seu processo de individuação, o que é e é capaz de fazer. E mais: que o que expressa, muito antes da fala articulada, é uma de suas poderosas ferramentas de comunicação.

Quando a assistente social Sylvia Nabinger esteve no Instituto Lóczy, em Budapeste, referência no cuidado de crianças de 0 a 3 anos – cuja influência é a filosofia de Emmi Pikler – o silêncio no ambiente a impressionou. Diferentemente daqui, onde a televisão ou o rádio/computador estão ligados quase sempre na escola, lá há espaço assegurado à pausa para que a criança possa compor a própria paisagem sonora a partir do que faz e experimenta (como quando descobre um brinquedo novo e o explora).

Isso sem contar nos sons inerentes ao lugar, que – pela rotina – dão à ela a segurança para agir com mais tranquilidade, uma vez que conhece o seu entorno: “ao ouvir o som da torneira do chuveiro, ela já sabe que ele antecipa a hora do banho e se preparará para isso”, conta Sylvia. Abafar esses “barulhinhos-referências” com eletrônicos ou vozes em alto volume é desconectá-la de si mesma e dos outros, prejudicando o seu desenvolvimento.

Mas, afinal, qual é o ambiente ideal para que a criança cresça de forma saudável? Emmi Pikler, pediatra, esteve à frente de um abrigo em Budapeste logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Com poucos recursos (pense na escassez de um período desafiador como esse), ela possibilitou às mais de 2000 crianças que por ali passaram as melhores condições para se desenvolverem plenamente. Como conseguiu? Adotando como bases: a segurança afetiva, o ambiente previsível e o bom desenvolvimento cognitivo e motor. Isso foi fundamental para os adultos que se formaram dali.

“Os três primeiros anos são primordiais para o fortalecimento do vinculo de confiança, que será a base dos sujeitos ao estabelecimento das relações. Se esse apego for adequado, o bebê vai criar um modelo operacional interno de segurança, passando a confiar nos adultos”, diz Sylvia. Daí, irá explorar o que o rodeia, possibilitando inúmeras sinapses e tecendo uma linda trama cerebral de habilidades tanto motoras quanto socioemocionais. Como aconteceu com os bebês Pikler.

No programa de adoção internacional do qual Nabinger participou pelo Juizado da Infância do Rio Grande do Sul, em torno de 100 crianças foram adotadas por pais europeus. 10 anos depois ela foi visitá-los para saber como estavam e constatou que, nas suas palavras: “alguns dos desfuncionamentos na adaptação e convívio com as novas famílias não se justificavam só pelo histórico familiar sanguíneo que traziam, mas também por conta da ausência de um cuidado efetivo nas instituições de acolhimento daqui.”.

A pesquisa acabou por fazer crescer a vontade de trazer ao Brasil o que tinha visto em Budapeste, com a prática da Abordagem Pikler. Começou como uma iniciativa acanhada na cidade de Porto Alegre, com a criação da oscip Acolher – que prestava consultorias em abrigos e creches – e foi ganhando forças por todo o território nacional. Hoje, os pilares da “pedagogia dos detalhes” estão espalhados por toda parte.

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Ainda há um enorme trabalho a ser feito para que saiamos de uma visão gerocêntrica (que tem o adulto como elemento principal) para uma leitura pedocêntrica (hora e vez das crianças) da infância. Políticas públicas dos últimos 40 anos apontam uma melhora significativa nos índices, só que em se tratando de um lugar com a dimensão do Brasil, há bastante trabalho pela frente.

Mas a perspectiva é otimista. Organizações como a Rede Nacional de Proteção à Infância, a Aliança pela Infância, o Instituto Alana e a própria Rede Pikler Brasil têm atuado de forma ostensiva na promoção dos direitos assegurados às crianças pela Constituição Federal, mas muitas vezes escanteados pelo Estado, instituições de ensino particulares e, mesmo, pela sociedade.

Cuidar dos pequenos é tarefa de todos. E essa consciência tem de se propagar. Ao tratarmos as crianças de forma respeitosa, acolhendo suas individualidades, estabelecendo vínculos afetivos e favorecendo o ambiente para as suas descobertas, acenamos não só para um futuro melhor a todos, uma vez que é a humanidade que ajudamos a construir, mas também – muitas vezes – nos possibilitamos voltar ao passado para curarmos a criança ferida que fomos, dando a quem nos é designado o cuidado aquilo que não tivemos quando pequenos. E isso é muito gratificante!

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Coleção Primeira Infância