“Um imperador vai escolher alguém para sucedê-lo. Então, entrega sementes de flores a todas as crianças do reino e diz que aquela que fizer o melhor possível durante um ano irá assumir o seu posto. Ping era um menino que adorava cuidar das flores. Plantou a semente que lhe foi dada, mas – para a sua surpresa – ela não brotou no período determinado. Apesar de chateado, ele foi orientado pelo pai a ir ao encontro do imperador mesmo assim. Os amigos que apareceram traziam vasos com flores deslumbrantes, mas a autoridade os observava séria. Quando terminou de ver a todos, perguntou a Ping por que ele estava com um vaso vazio e o menino contou que, apesar de todos os cuidados, a flor não tinha vingado. Depois de ouvi-lo, o imperador anunciou que todas as sementes estavam queimadas, portanto não podiam ter brotado e como Ping tinha trazido a mais pura verdade, seria o próximo imperador.”

Esse conto poderia ter sido dito em volta de uma fogueira num povoado distante dos grandes centros ou compartilhado via whatsapp nos grupos de família que causaria boas impressões. O que faz uma história ter ressonância em diferentes lugares e tempos? Para a contadora Ilana Pogrebinschi é a universalidade que detém. Há 18 anos ela se (e aos outros) inspira com Ping e outros personagens promovendo encantamento por aí.  No bate-papo a seguir, nos conta sobre seu percurso em meio ao mundo cênico da contação de histórias e fala a respeito da importância de levar um pouco dessa magia às pessoas. Sobretudo hoje.

Como as histórias dos outros nos ajudam a contar a nossa própria história?

Existe uma pequena história de um mestre e um discípulo. O discípulo perguntou ao mestre:

–Mestre, como devemos tratar os outros?

E o mestre diz:

– Não existem outros.

Esta barreira que criamos, na verdade não há. Mesmo sendo uma pessoa de uma cultura, raça ou religião diferente, se ela viveu uma experiência que considerou importante e está narrando naquele momento, algo pode reverberar dentro de nós. Quando alguém conta sua própria história, testemunha as provas da sua jornada e como conseguiu passar por elas, é como se estivéssemos também contando a nossa história pois somos um só como humanidade.

Qual a importância da fantasia nas histórias?

Vivemos num mundo onde as coisas da matéria são veneradas, cultuadas e ambicionadas ao extremo. Não que a gente não precise lidar com coisas materiais, fazem parte do nosso dia a dia, mas acabamos nos esquecendo do que em essência somos. Das nossas aspirações mais profundas. E os sonhos e as histórias trazem à tona, através dos símbolos, algumas chaves para que a gente vá se interessando por nosso mundo interior. A imaginação, a fantasia, nos leva a locais que não sabíamos ou lembrávamos que existiam dentro de nós. E quando começamos a descobrir, a nossa vida externa muda. Passamos a ter uma relação mais criativa e harmônica com tudo à nossa volta.

Há algo em comum em todas as histórias?

Sim. Podemos contar uma história tradicional africana, grega, italiana, chinesa, indígena… os personagens vão mudar, as paisagens, as roupas, as tradições serão diferentes. Mas algo todas têm em comum: este testemunho vivo de alguma prova, desafio experimentado pelos ancestrais e de como passaram com sabedoria por tudo isso, que caminhos foram escolhidos. E mesmo ouvindo uma história de um local tão distante, algo se agita dentro da gente e nos dá um sinal de que ouvimos algo que estávamos precisando ouvir.  Inno Sorcy, que é uma contadora de histórias africana maravilhosa nos diz que estes contos são cartas de amor endereçadas a cada um de nós nos dias de hoje.

Como uma história nasce em você?

Quando encontramos uma história ou quando ela nos encontra, e é amor à primeira vista, vivemos uma paixão! Ficamos cheios de alegria, de entusiasmo! E esta relação nos engravida, nos deixa criativos, animados com algo novo. Começamos a gestar e nos preparar para dar à luz. Trazer um ser ao mundo que é um tesouro. Então começamos a conversar com esta história. Como ela quer ser contada? Com bonecos, objetos, música, sem nenhum material? Como ela poderá brilhar e apaixonar outros seres?

Fale um pouco sobre seu trabalho de contação de histórias para pessoas em situação de rua.

Desde 2013 desenvolvo um trabalho com o grupo que coordeno chamado Um em Harmonia. É um grupo de música, mas sempre conto uma história para iniciar uma visita nos locais onde vamos tocar e cantar. As músicas são de várias linhas espirituais, religiosas, de comunidades alternativas, que falam de paz, amor, unidade, fraternidade. Vamos a asilos e outras instituições. E também fazemos um trabalho semanal na Casa Cristo do Bem, no Rio Comprido, com pessoas em situação de rua, que chamamos de peregrinos. Eles vão almoçar, tomar banho, receber roupas limpas enquanto as palavras encantadas são contadas e cantadas. Sinto que, para eles, as músicas e histórias contadas com o coração são bálsamos imediatos. Ficam muito sensibilizados e percebem a importância deste encontro constante com algo que é eterno, que não muda, que é amplo, que nos traz alegria e pode nos transformar profundamente. E a urgência que sentimos quando vamos contar histórias para um grupo como esse é imensa. Estão sedentos de algo que possa alimentar não só o corpo, mas também a alma.

Por que contar histórias hoje em dia?

Os povos tradicionais passavam o conhecimento, a sabedoria que tinham sobre os reinos da natureza, sobre a vida e a morte, sobre os mistérios do céu e da terra através das suas tradições. Contos, músicas, a forma como plantavam, teciam, trabalhavam com a madeira, com o ferro, com os alimentos… Este encontro dos mais velhos que até hoje passam o que aprenderam para os mais novos, não temos ideia de como isso fortalece nosso mundo interno e nos dá bases firmes para crescermos nos sentindo parte do todo. As histórias nos lembram que não estamos sós, que há sempre novos caminhos a descobrir e a percorrer.  Num mundo onde a depressão é cada vez mais comum, que a meu ver é uma desconexão com suas raízes, suas origens, daqui deste planeta e quem sabe até mais antigas… então esta simples ação de contar uma história que nos toca  pode reativar, reavivar a essência divina em nós e nas pessoas que escutam com o coração aberto.

Foi Jude Le Paboul quem disse: “O conto e o contador e os ouvintes que o escutam formam uma comunidade em que se pode se sentir à vontade, em que se pode partir ao infinito, se pode comunicar, todos juntos. Eu penso que é disso que mais estamos precisando em nossa época. Há tão poucas comunidades! Somos indivíduos, uns ao lado dos outros. O conto e o contador são a alma que pode religar todo o mundo. ”

 

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