*Por Patrícia Couto Gimael

Esta pergunta inquieta muitas mães. A troca de fraldas é frequentemente considerada como algo sujo e incômodo. Algo que deveria, de preferência, ser superado ou encerrado o quanto antes.

Mas, qual seria a importância da troca de fraldas para o desenvolvimento físico e emocional de um bebê?

Na intimidade dos momentos de troca é possível criar um forte vínculo entre mãe e bebê e construir uma relação de confiança, respeito e gratidão. Assim sendo, é uma oportunidade para o estabelecimento de um vínculo forte e saudável, para a formação dos laços afetivos.

Portanto, não tenha pressa para retirar as fraldas do seu bebê, este processo pode ser realizado entre os 18 e os 36 meses. Quando o desfralde acontece muito cedo, antes dos 18 meses ou antes que a criança esteja de fato preparada, a exigência de controlar a vontade de ir ao banheiro, pode fazer com que a criança se sinta inadequada, suja ou incompetente. Estes sentimentos podem tornar a criança inibida, insegura ou medrosa.

Quando o treino é acompanhado de ameaças e punições, o desenvolvimento motor pode ser afetado, na medida em que a criança procurando entender e corresponder aos pedidos do adulto que ama, tensiona o seu corpo e restringe os seus movimentos na tentativa de obter o controle tão esperado.

O desenvolvimento da fala também pode ser afetado pela retirada precoce das fraldas. No segundo ano de vida a criança está justamente aprendendo a falar. Reter e expulsar são as ações necessárias tanto no desenvolvimento da fala quanto no aprendizado do controle das necessidades fisiológicas. Se o processo for impositivo criando um ambiente muito tenso, afetará também o desenvolvimento da fala.

O desfralde, quando precoce, sem dúvida exige métodos rígidos de controle e observação. Adultos que passaram por processos muito rígidos na infância podem muitas vezes se tornar ordenados, meticulosos, obsessivos, não tolerantes a mudanças e frequentemente sem criatividade. O controle e a rigidez se tornam o seu modo de vida. Pois, estas primeiras experiências emocionais e afetivas influenciam na formação da individualidade.

Dependendo da forma como é feito o treino do uso do vaso sanitário, a criança pode vivenciar este treino como uma violência exercida contra o seu corpo. Quando o resultado é positivo, o uso adequado do vaso sanitário gera prazer compartilhado com o adulto. Este é vivenciado como uma recompensa em relação à violência sofrida. Esta vivência pode levar a relações conflituosas em que há punição e recompensa, ou seja, uma violência exercida contra o outro e um alívio que traz prazer a ambos, o que se torna muitas vezes a origem das relações sadomasoquistas.

Para o sucesso da retirada das fraldas, é necessário observar a maturidade física, psíquica e o equilíbrio emocional para iniciar este processo.

Quando seu filho já for capaz de ficar de cócoras, cruzar as pernas, saltar com os dois pés juntos, subir e descer escadas sozinho, tirar a própria roupa e permanecer por um tempo maior com a fralda seca, ele estará mostrando que está pronto fisicamente para a retirada das fraldas.

Ele ou ela estarão maduros psiquicamente para este processo quando expressarem o desejo de fazer xixi e/ou cocô, compreenderem o que lhes é dito, demonstrarem interesse pelo uso do vaso sanitário ou pedirem para retirar as fraldas.

Se houver uma situação de insegurança emocional, isto é, ciúmes ou insegurança como por exemplo: o nascimento de um irmãozinho, mudança de casa, entrada na escola ou a distância física da mãe, é melhor adiar a retirada da fralda.

E lembrem-se, só depois que a criança retirar as fraldas de dia e se acostumar a utilizar o vaso sanitário é que as fraldas da noite devem ser retiradas

 

Bibliografia

Adquisición del control de esfíncteres – Miriam Rasse (psicóloga da APLF)

 

Patrícia Couto Gimael CRP 06/50090

Psicóloga tem formação Junguiana, em Psicologia ampliada pela Antroposofia e como Aconselhadora Biográfica. Desde 2010 tem participado ativamente de cursos, no Brasil e no exterior, sobre a Abordagem Pikler, consagrada pedagogia voltada para crianças de 0 a 3 anos.

Atende crianças em consultório particular e realiza orientação aos pais desde 1996. Desenvolve, coordena e é docente em projetos de formação continuada para professores da rede pública e privada de ensino com base na Pedagogia Waldorf, no estudo do desenvolvimento infantil, na neurociência e na Abordagem Pikler.

Membro da Rede Pikler Brasil participou da organização de cursos e palestras internacionais em 2015, 2016 e 2017 com a participação de grandes mestras: Anna Tardos, Agnès Szanto, Myrtha Chokler, Isabelle Deligne e Sylvia Nabinger em São Paulo.

Cofundadora do Grupo Educar 0 a 3 que realizou a revisão técnica de dois livros sobre a Abordagem Pikler publicados em português no Brasil pela editora Omnisciência.

  • Infância Vivenciada (2013) – Editora Paulinas

  • Estudos e Reflexões de Lóczy (2011) organizado e publicado pela OMEP – Organização Mundial para Educação Pré Escolar
  • O Acolhimento de bebês: práticas e reflexões compartilhadas, publicado pelo Instituto Fazendo História (2014)

Livros sobre a Abordagem Pikler em português