Estar no lugar certo, na hora certa. E com uma câmera. Foi o que aconteceu com Irene, uma das cuidadoras da creche Lóczy, em Budapeste. Enquanto filmava a rotina de bebês para o documentário “Lóczy – Um lugar para crescer”, de Bernard Martino, esta cena chamou a sua atenção: deitada com a barriga para cima, uma criança esforçava-se para alcançar a tigela de inox disposta no chão.

Assim que o braço, em compasso, finalmente pinçou o objeto, ela viu a mão refletida na peça brilhante e a reconheceu como sua. Passou, então, um largo tempo aproximando a palma dos fundos da vasilha, abrindo e fechando os dedos, admirando o seu próprio movimento ali espelhado.

Até um ano e meio, aproximadamente, a criança se vê e ao mundo como uma coisa só, mas a variedade de experiências com quem a circunda e objetos vão lhe trazendo a noção de contorno: a percepção da pele como fronteira entre o que ela é e o resto. Esse processo se dá até os três anos, mais ou menos, quando passa a assumir-se como “eu” e, diante de uma folha de papel, desenha um círculo, representação simbólica de sua inteireza.

O que Irene registrou foi um dos primeiros instantes de consciência de si do bebê, que associou a imagem refletida no objeto ao movimento da própria mão. Essa vivência, somada a outras tantas que virão, darão ao pequeno a compreensão do que é feito e de suas capacidades.

Toda criança que vem ao mundo tem um trabalho a realizar: nascer para si vivendo integralmente. A fim de nos ajudar a entender melhor esse caminho de autodescoberta, nos ancoramos  nos trabalhos da pediatra Emmi Pikler, que enaltece a rotina de cuidados como fator crucial ao desenvolvimento saudável, e no livro “Virando Gente – a história do nascimento psíquico” (Ideias & Letras, 2014), que – por meio das escolas inglesa e francesa de psicanálise – traça o mapa da constituição do sujeito.

E aí, vamos passear pelo começo da vida?

Imagine-se: no princípio é água. E por todos os lados. Uma bolsa envolvendo o corpo, um tubo ligado à barriga assegurando o alimento, o oxigênio e a temperatura constante pontuam a perspectiva de dentro. Mas alguns sons, como os do intestino, do coração e, mesmo, da própria voz da mãe, insinuam que há algo além dali. Quando o espaço fica pequeno, a suspeita ganha forma e um universo, totalmente diferente, se descortina diante de olhinhos curiosos.

 

A mudança do ambiente aquoso para o aéreo traz algumas novidades: lidar com o peso, aprender a respirar pelo nariz, assimilar a luz e a temperatura, variáveis, além de ter de aprender a pedir o próprio alimento. Nesse tumulto, que lugar pode trazer o reconforto de antes se não o colo materno? Arqueado em seus braços, a postura lembra a do útero. O cheirinho, o calor e os sons conhecidos trazem a segurança para sorver o leite e, na sequência, entregar-se a um sono reparador. Comer é muito mais do que simplesmente ingerir o alimento.

 

Na hora do banho, o reencontro com a água. E um medo: derreter. Como não se tem consciência de que suas partes são integradas, a impressão é a de que irá se desfazer na banheira. O toque firme porém doce do cuidador, fazendo a sustentação da coluna, trazem a segurança de que precisa para tornar aquele momento especial.

 

 

Outros dois receios que surgem nessa etapa são: o da queda no abismo (quando passado de colo em colo) e o medo de explodir com os gases intestinais (que não sabe de onde vêm). Acolher as inquietações com afeto e delicadeza são o remédio de que precisa para tranquilizar-se e, aos poucos, ir compreendendo melhor as coisas.

 

Por meio da repetição, vai se entendendo que o alimento passa por um sistema de tubos e é armazenado na barriga sem que vaze. Mais adiante, percebe-se que também é possível conter emoções sem se desafazer por elas. Criando relações entre dentro e fora, nessa fase passa a guardar bolinhas e outros objetos em tigelas e a experimentar encaixes.

 

 

Como é bonito ver um bebê batendo palminhas! E fica ainda mais encantador quando se entende que ele está celebrando ali o encontro de suas duas metades!

 

 

Um pouco mais adiante, vai dar início à marcha, à caminhada, e – se sentindo; literalmente – passará a nomear tudo o que o circunda.

 

 

 

Maiorzinho, com lápis e papel na mão, fará o desenho de um círculo, representando a sua inteireza. Pronto, nasceu pra ele!

O cuidado na primeiríssima infância – Abordagem Pikler

Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, a pediatra Emmi Pikler foi convidada pelo governo de Budapeste para dirigir uma instituição de acolhimento com inúmeras crianças que haviam perdido seus pais no conflito. O trabalho desenvolvido pela médica ganhou notoriedade ao redor do mundo, pois alguns desses bebês, de 0 a 3 anos, foram acompanhados até a vida adulta e não apresentaram nenhuma característica comum a quem frequentou espaços desse tipo, como hospitalismo e dificuldade de interação social.

Tendo como pilares principais da pesquisa o estabelecimento de vínculo entre adulto-cuidador/bebê e movimento livre e seguro para que as conquistas se deem por meio da autonomia, de forma lúdica, a Abordagem Pikler vai ao encontro daquilo que foi mencionado antes: Faz-se necessário que o ambiente facilite os processos da criança oferecendo as condições de que precisa para desenvolver-se de corpo, psique e alma!

______________________________________________________________________

Hoje, há escolas que adotam alguns aspectos da Abordagem Pikler espalhadas por todo o Brasil. Recentemente, aconteceu no Rio de Janeiro o Primeiro Encontro Nacional da Rede Pikler, com cerca de 600 educadores de diferentes estados.

Desde 2016, é possível conhecer mais sobre o tema por meio dos títulos em português. Inspire-se:

É por meio do brincar que a criança experimenta o mundo e se desenvolve, por isso ele é tão vital quanto respirar. Neste livro, especialistas na Abordagem Pikler apresentam os principais conceitos para o desenvolvimento integral das crianças: estabelecimento de vínculo, respeito ao movimento livre e autonomia, com foco no brincar. Para isso, sugerem práticas que favoreçam as habilidades inatas dos bebês, como o preparo de um ambiente para a exploração, a seleção e organização dos brinquedos para cada fase e dão dicas sobre a postura do adulto, junto da criança, enquanto a brincadeira acontece.
Quem fez a tradução técnica e respondeu pela publicação do livro foi o Grupo Educar 0 a 3, situado em São Paulo e que tem por objetivo desenvolver consciência quanto ao significado e importância da infância junto a famílias e escolas, “As origens do brincar livre” é um dos poucos títulos em português que traz os conceitos e aplicações da Abordagem Pikler no cuidado de crianças na primeiríssima infância.

 

A abordagem Pikler para crianças de 0 a 3 anos foi desenvolvida pela médica húngara Emmi Pikler que somou a sua experiência de dez anos como médica de família ao trabalho realizado na instituição de acolhimento situada na Rua Lóczy em Budapeste e a observação e o registro minucioso do desenvolvimento de bebês para desenvolver um trabalho profissional de excelente qualidade. Esta abordagem está embasada no cuidado com a saúde física e no respeito com a individualidade de cada criança e tem como princípios fundamentais a relação privilegiada entre mãe/educadora e bebê e o desenvolvimento da autonomia através do brincar livre.
Divulgar a Abordagem Pikler que surgiu como uma prática pedagógica, logo após a II Guerra Mundial (1946), em uma instituição de acolhimento como uma resposta positiva à adversidade é provocar discussões e reflexões sobre as possíveis adaptações dessa abordagem à complexa realidade da educação infantil brasileira. É esse o objetivo desta publicação. Boa leitura!

 

A partir de suas vivência com Formação Continuada de Profissionais de Educação Infantil e de seu envolvimento com a Abordagem Pikler, a autora compartilha com o leitor reflexões sobre o papel do educador de crianças pequenas e os pontos essenciais para promover o desenvolvimento físico, mental e emocional nos primeiros anos de vida, principalmente em ambiente coletivo.
O livro apresenta uma síntese da abordagem que Emmi Pikler construiu durante o período em que atuou como médica de família e diretora de um abrigo de crianças até 3 anos, no final da Segunda Guerra Mundial, em Budapeste. Essa pedagogia baseia-se no reconhecimento do bebê como um indivíduo capaz desde o nascimento, na valorização do vínculo afetivo, na liberdade de movimentos e no desenvolvimento da autonomia.
Neste título estão também presentes: reflexões sobre a consciência corporal do educador, com base na Eutonia – pedagogia terapêutica com aplicação nas áreas da educação, saúde e artes, que auxilia a reintegração da imagem corporal; ideias do filósofo e educador Rudolf Steiner a respeito da importância do movimento, do equilíbrio, do tato e do sentido vital na primeiríssima infância; e experiências de atividades não dirigidas desenvolvidas pela autora em seu espaço de pesquisa, formação e oficinas: o Ateliê Arte, Educação e Movimento.

_______________________________________________________________________

Conheça também: Virando Gente – A história do nascimento psíquico

Com o título ‘Virando Gente – a história do nascimento psíquico’, a editora Ideias & Letras apresenta a descrição do ponto de vista de um bebê sobre sua trajetória para nascer psiquicamente. O trabalho é de autoria de Ivanise Fontes, Maísa Roxo, Maria Cândida S. Soares e Sara Kislanov. Bruno, nosso personagem, conta a história de suas sensações desde um tempo precoce, no útero de sua mãe, até cerca de 1 ano e 3 meses, mostrando as experiências corporais necessárias para desenvolver a consciência de si mesmo. Será a partir dessas experiências que construirá a diferença entre ele e o mundo que o circunda. Pode-se dizer então que Bruno “Virou gente”. O objetivo das autoras foi ressaltar a importância do corpo sensível na origem do psiquismo. A fundamentação teórico-clínica veio de autores psicanalistas contemporâneos voltados para a observação de bebês e para o desenvolvimento emocional primitivo, entre os quais destacam-se G. Haag, F. Tustin, D. W. Winnicott e D. Anzieu. A intenção é que esta obra, com o seu cunho preventivo, profilático, torne-se útil para todos que têm a grande tarefa de lidar com os bebês. É destinado a mães, pais, professores, babás e profissionais de creche.