Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, Reggio Emilia – uma cidade ao norte da Itália – estava destruída. Além do ambiente devastador, havia ali também uma população em ruínas, entristecida pelas perdas decorrentes dos conflitos. A fim de recuperar o tecido social, cultural e político daquele lugar, a longo prazo, um grupo de moradores decidiu criar uma escola. O projeto foi capitaneado pelo professor Loris Malaguzzi e, com o dinheiro obtido pela venda de um tanque de guerra abandonado e de alguns caminhões e cavalos deixados pelos alemães, eles deram início à empreitada.

Influenciados pelas teorias psicopedagógicas da Europa, como Jean Piaget, Lev Vygotsky e John Dewey, assim como pelos conterrâneos Maria Montessori, irmãs Agazzi e Bruno Ciari, a comunidade foi instituindo os pilares de uma pedagogia centrada no desenvolvimento integral dos pequenos, de modo a contemplar os aspectos intelectual, emocional, social e moral. Reestruturar as bases da sociedade por meio de um trabalho humanitário realizado junto às crianças era assegurar uma nova perspectiva para eles e seus sucessores; revertendo o quadro que se apresentava naquele momento.

Este modelo inicial foi ganhando corpo ao longo do tempo e, hoje, está presente em 40% das escolas da cidade, que compõem 13 creches e 21 pré-escolas. Além disso, já extrapolou os limites da bota no mapa e é inspiração para muitas instituições de ensino ao redor do mundo.

A pedagoga Vanessa Galvani esteve no país europeu e conheceu de perto as escolas Reggio Emilia. Muito do que viu se assemelha a outra pedagogia que também eclodiu em um contexto pós-guerra, a Abordagem Pikler, e esse paralelo, bem como informações sobre o projeto-sonho de Malaguzzi, você pode conferir abaixo.

As múltiplas linguagens da criança

Bem diferente dos modelos tradicionais, que privilegiam um método pré-estabelecido de ensino e onde a verticalidade do processo de aprendizado (adulto-criança) é predominante, em Reggio Emilia os educadores têm por premissa a observação e escuta dos alunos. Isso tudo para trabalhar em cima de suas potencialidades individuais e coletivas.

Na prática: as escolas criam laboratórios onde os pequenos vão trabalhar diferentes linguagens, como as gráficas e de manipulação (maquetes), as relacionadas ao corpo – ligadas aos movimentos, as da comunicação verbal e da comunicação não-verbal, o pensamento lógico, discussões éticas, entre outras. Atua-se considerando, principalmente, as experiências obtidas por meio da pesquisa e das descobertas sensoriais dos estudantes, desenvolvendo neles a autonomia necessária para cresceram com confiança em suas habilidades, como relata Vanessa: “Em Reggio Emilia, quando eles definiram e cocriaram o que é a criança para eles e como poderiam mudar aquela sociedade ao cuidar delas e da infância, eles refletiram sobre quem é essa criança. E para eles a criança é protagonista de si e de sua vida, ela é potente e capaz!”.

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Espaço, o terceiro educador

Em setembro de 2017, este Portal entrevistou Agnès Szanto, uma das maiores especialistas em Abordagem Pikler – pedagogia para crianças de até três anos que tem, entre seus princípios, o reconhecimento do bebê como indivíduo capaz desde o nascimento, a valorização do vínculo afetivo, a liberdade de movimentos e o desenvolvimento da autonomia. No artigo, Agnès contou que um ambiente pikleriano precisa favorecer o brincar livre e proporcionar ao bebê explorações que o auxiliarão, inclusive, em seus processos cognitivos e motores. Daí, entram em jogo não só um local maior do que ele usufrui no dia a dia, como também objetos não-estruturados (e não brinquedos prontos), para ele interagir e, assim, ir tecendo a trama cerebral em formação.

Para Malaguzzi o espaço é, também, de grande importância. Tanto, que ele o caracterizou como “terceiro educador”, fazendo parceria com os dois professores em sala: “O espaço fala com a criança, documenta, transborda histórias, descobertas e muitas outras coisas…” ressalta Vanessa, “por isso é preciso um cuidado especial para prepará-lo”.

E como o ideal do professor italiano não se restringia aos muros da escola, essa demanda se estendeu pela cidade. Em todos os lugares que se vá em Reggio Emilia, há informações, imagens, objetos ao alcance das crianças! E o que dizer da REMIDA, um centro de estoque de materiais não estruturados, descartados para reutilização da sociedade? Olha só o que conta a Vanessa sobre esse lugar encantado:

“Parece um lindo mercado, com materiais maravilhosos, riquíssimos de singularidade, ali dispostos de maneira exuberante (e os italianos sabem muito bem como fazer isso), para livre e gratuita escolha das pessoas da comunidade. É como se fosse um grande mercado, mas que ao invés de comida, você encontra todo tipo de material possível de imaginar (espumas, carretéis, vidros, acrílicos, plásticos, tecidos, e tudo que empresas, indústrias, fábricas ou pessoas possam descartar). É possível ir lá coletar o que precisa para criar um projeto, uma instalação artística ou simplesmente para brincar – gosto de falar que é como se fosse uma grande loja de LEGO, mas com objetos abstratos, ou seja, muito mais ricos de se usarem, devido à ampla possibilidade de criação!”

A criança como potência

A pedagogia de Reggio Emilia diz que as singularidades das crianças reforçam o valor de cada indivíduo e, por isso, em instituições que a adotam como base de ensino, há perfis variados de alunos. Isso se torna latente e enriquecedor quando, depois de desenvolverem pesquisas em torno de um assunto que lhes interesse, os pequenos participam de um debate apresentando seus pontos de vista – o que favorece o questionamento sobre si próprios e sobre os outros. Naturalmente, mais adiante, serão cidadãos críticos e participativos.

Sem dúvida, este olhar abrangente para com a criança faz-se necessário para uma educação integral, promotora de um desenvolvimento saudável e, para isso, respeitar o ritmo, a singularidade de cada uma delas é, sem dúvida, uma premissa, como diz a pedagoga Vanessa Galvani: “Sempre levo a mães, pais e educadores os conteúdos dessas duas abordagens (Reggio Emilia e Pikler) a fim de tratar o que é esperado de cada etapa do desenvolvimento infantil, para que não criem expectativas muito altas em relação ao que a criança é capaz de fazer e que acreditem mais na potência dela, preparando o espaço –  como sugere Reggio Emilia – e deixando a criança explorar livremente, como sugere Emmi Pikler, sempre com muito amor e respeito.”.

Quer saber mais sobre como funcionam as escolas Reggio Emilia? Confira a reportagem completa feita pela UNIVESP TV:

 

Livros sobre a Abordagem Pikler em português: