*Fonte: El País

Desde 2009, a prevalência do sexting, prática de risco que consiste em compartilhar eletronicamente material sexualmente explícito, aumentou exponencialmente. De acordo com uma meta-análise publicada no final de fevereiro na revista JAMA Pediatrics, um número considerável de jovens menores de 18 anos participa ou já participou de práticas de sexting em algum momento; especificamente um em cada sete (15%) enviando material sensível e um em cada quatro (27%), recebendo-o.

Especialistas como Jorge Flores insistem que não existe uma idade adequada para ter o primeiro telefone, pois é mais uma questão de maturidade e de habilidades. “É como comparar com qual idade a criança pode entrar na água sozinha ou quando pode começar a esquiar. Tudo dependerá da preparação dos pais e monitores e não de uma idade específica. Com o uso da tecnologia acontece algo parecido, depende mais do acompanhamento, do conhecimento e do tempo que se dedica às crianças. No entanto, para estabelecer um marcador, considero que ter autonomia total com um celular conectado à Internet e às redes sociais parece inadequado especialmente no caso de crianças menores de 13 anos”, explica o fundador do PantallasAmigas, que acredita que o grupo de pré-adolescentes ou adolescentes de menor idade, de 10 a 12 anos, não é capaz de ver os riscos que implicam práticas como o sexting em comparação com um adolescente maior “e que pode ter uma maior consciência do que está fazendo”.

Riscos do sexting

Existem múltiplos riscos potenciais derivados da prática do sexting. Entre outros, acontece que se algo é feito de modo privado e atinge a esfera pública, o direito à privacidade, à honra e à própria imagem é violado. Além disso, como Jorge Flores menciona, esse tipo de prática pode ser um indicador de vítima potencial para predadores sexuais no sentido de que “são pessoas que realizam práticas de risco”, o que as coloca no ponto de mira. Por trás do sexting estão casos de vingança, abuso e chantagem financeira, emocional ou sexual que, no caso das meninas e adolescentes, aumentam de certa forma a vitimização pelo enraizamento de certos estereótipos e lugares-comuns sociais. “Elas são apontadas e ridiculizadas com mais crueldade e isso pode ter consequências fatais como o suicídio. Já vimos isso em casos como os de Jessica Logan ou Amanda Todd em 2012, ambas são exemplos claros de suicídio por cyberbullyinginiciado a partir da publicação não consentida de uma imagem cedida na privacidade, em um caso ao parceiro e em outro a um desconhecido.”

De acordo com Sheri Madiga, professora assistente do departamento de psicologia da Universidade de Calgary (Canadá) e diretora do estudo publicado na JAMA Pediatrics, o sexting não consentido (ou seja, o encaminhamento de imagens ou vídeos sem permissão) e as formas coercitivas de sexting (isto é, quando alguém é pressionado para enviar uma mensagem), “podem, compreensivelmente, causar uma angústia considerável aos adolescentes”. Também tem sérias consequências legais potenciais. “O sexting pode parecer muito como o comportamento sexual: quando é consentido, há muito poucas consequências negativas para a saúde, mas o sexting não consentido ou forçado (assim como o sexo não consensual ou forçado) está relacionado com a uma má saúde psicológica”, acrescenta.

Embora se possa pensar que o sexting consentido estaria relacionado com comportamentos impulsivos e de risco, como maior frequência de parceiros sexuais, maior número de parceiros concorrentes e o uso de drogas e álcool antes do sexo, para Madiga nem todos os jovens que fazem sexting estão se envolvendo em comportamentos problemáticos, pois essa prática pode ser realizada dentro do contexto de relacionamentos saudáveis.

Nesse sentido, teria muito a ver a influência de tudo o que acontece no outro lado da rede, ou seja, no ambiente em que as crianças e adolescentes atuais estão crescendo, no qual os meios de comunicação e a publicidade influenciam na sexualização precoce de meninas e meninos. Uma hipersexualização que, na opinião de Jorge Flores, também é transmitida por certos conteúdos digitais: “Nós a vemos em youtubers e instagramers, por exemplo, que transmitem modelos e mensagens muito relacionados ao sexo e ao erotismo, repetindo certos padrões, seja por convicção ou por conveniência”.

Educar cidadãos digitais responsáveis

O PantallasAmigas trabalha há anos oferecendo vários recursos online em três diferentes linhas de ação. O primeiro projeto parte da ideia de que, uma vez que quem faz sexting não é culpado de nada, mas se expõe a riscos, precisa estar informado sobre esses riscos. “Muitos dos problemas advindos do sextingpartem do que a sociedade faz com essas imagens que recebe, pois é ela que as tornam virais. O sexting é um fenômeno global, não é apenas aquele namorado sem-vergonha que fica irritado e publica uma foto para se vingar, essa imagem ou vídeo pode ter sido perdida e cair nas mãos de alguém com más intenções, também é aquele pedófilo que quer se aproveitar de você. E é por isso que é interessante trabalhar em todas as frentes.”

À pergunta o que os pais podem fazer para que as crianças tenham ferramentas para enfrentar esse tipo de práticas de risco, Sheri Madiga responde que pediria aos pais que fossem “mais proativos do que reativos” em relação ao sexting para criar cidadãos digitais responsáveis. “Ter conversas abertas em idades precoces frequentemente e não somente quando surgem preocupações. Os pais devem discutir o papel potencial do sexting em relacionamentos afetivos saudáveis, bem como os possíveis riscos e consequências. As conceitos de pressão de grupo, sexualidade, relações online versus offline, etc., também devem ser discutidos dentro da família.” Madiga reconhece que, para alguns pais, a ideia de falar com os filhos sobre sexo pode intimidá-los e que agregar o ambiente digital a essa equação, “que é território desconhecido para alguns pais”, o torna uma dupla ameaça. No entanto, ela ressalta que é precisamente na rede onde os pais podem encontrar alguns recursos úteis que os ajudarão a se informar sobre esse mundo digital em constante mudança e a preparar esse tipo de conversa.

Para Jorge Flores, autor de vários materiais informativos e didáticos relacionados com o grooming, o ciberbullying e o sexting, a primeira ferramenta que os adultos têm é o exemplo e, nesse sentido, temos muito a melhorar. “Estamos dirigindo e usando o WhatsApp, andamos pela rua digitando, atendemos o telefone enquanto estamos comendo quando não há necessidade alguma, postamos fotos de qualquer um, inclusive de nossos filhos, sem pedir-lhes permissão, e assim por diante. Os adultos são exemplos muito ruins para crianças e adolescentes a esse respeito”, lamenta. Além do melhor uso por parte dos adultos, Flores acrescenta mais duas ferramentas ao nosso alcance: o acompanhamento e o conhecimento dos aplicativos e do mundo digital para poder conversar e compartilhar com eles essa informação; e o uso de sistemas de controle parental.

Jordi Jubany, professor, antropólogo e especialista em educação digital e autor do livro ¿Hiperconectados?, concorda com as recomendações de Flores e acrescenta que pode ser produtivo compartilhar com as crianças desde pequenas os protocolos que nós mesmos deveríamos usar na rede, como publicar apenas coisas úteis, verdadeiras e com bons propósitos. De acordo com Jubany, devemos prestar atenção à necessidade de desenvolver a nossa identidade digital e o sexting é um bom exemplo. “Nossos rastros podem ser vistos se nos buscarem no Google, Facebook ou Instagram. E tudo o que digitalizamos, enviamos ou publicamos é suscetível de ser encontrado em um contexto não previsto. Temos que tirar proveito desses casos reais de más práticas que conhecemos no nosso entorno e nos meios de comunicação para tomar consciência, aprender com nossos erros e usá-los de modo educativo. É muito importante manter os canais de comunicação abertos com os nossos jovens em um ambiente conectado que é diferente daquele em que fomos educados”, conclui.