De 8 a 9 de setembro aconteceu – em São Paulo – o Simpósio Internacional Sobre a Primeira Infância, organizado pela Red-Pikler Nuestra América. O evento, intitulado “Tempo, Espaço, Relações e Objetos – a organização da vida cotidiana de bebês e crianças bem pequenas, segundo a Abordagem Pikler”, contou com a presença das principais especialistas no assunto: Agnès Szanto (França), Isabelle Deligne (França) e Myrtha Chokler (Argentina). Mais de quatrocentos participantes, de diferentes países latino-americanos, lotaram o auditório da UNINOVE Vergueiro a fim de conhecer ou se aprofundar no tema.

A Abordagem Pikler é uma pedagogia para crianças de 0 a 3 anos, que foi desenvolvida pela médica húngara Emmi Pikler e tem, entre seus princípios, o reconhecimento do bebê como indivíduo capaz desde o nascimento, a valorização do vínculo afetivo, a liberdade de movimentos e o desenvolvimento da autonomia.

Todos esses elementos são indispensáveis à saúde integral das crianças e repercutirão nas fases seguintes: “A gente é jovem uma vez na vida, mas os primeiros anos duram para sempre”, disse Sylvia Nabinger, integrante da Rede Pikler-Brasil, na abertura. Ela é fundadora da Oscip Acolher, uma das pioneiras tanto na divulgação quanto na aplicação da filosofia de Emmi Pikler no Brasil.

Veja algumas das observações feitas pelas palestrantes durante o evento.

Observação atenta

Agnès Szanto foi paciente de Emmi Pikler e, “apesar de não se lembrar dos cuidados na primeira infância, tem certeza de que carrega algo da experiência com ela”. Na palestra que abriu as atividades do Simpósio, Agnès focou na observação atenta das crianças como o fio condutor de sua vida e experiência enquanto educadora.

Ela disse se lembrar do encantamento ao conhecer, pela primeira vez, uma instituição que trabalhasse com a Abordagem Pikler nos anos 1970, sobretudo o que viu sendo feito de forma tão afetuosa pelos cuidadores: Na sala onde havia alguns bebês, os adultos apenas os observavam e favoreciam a natureza inata, curiosa das crianças, para que elas pudessem, à sua maneira e a seu tempo, trilhar os caminhos de desenvolvimento com liberdade e alegria.

O que pode aparentar um certo distanciamento, na verdade é exatamente o oposto. Não existe observação atenta sem o estabelecimento de um vínculo e, por isso, o olhar do adulto está além do que zela, ou do que julga. É aquele que percebe os avanços, pequenas conquistas, no desenvolvimento de cada bebê e prepara o ambiente para as novas conquistas que virão.

Uma vez, Agnès foi conversar com educadoras de uma creche. Ela disse que algumas delas alegavam não ter tempo para anotar o que experimentavam ali. Então, Agnès pediu que fizessem esse exercício por apenas 3 minutos e, depois disso, trouxessem seus apontamentos. Quando retornaram, uma discussão de horas aconteceu. Toda ela baseada nos 3 minutos de anotação sobre uma criança. Ao final do encontro, uma das educadoras, que trabalhava na instituição há 10 anos, disse: “eu nunca tinha observado uma criança de verdade.”.

A criança e o coletivo

A fala da pediatra francesa Isabelle Deligne reuniu importantes observações a respeito da adaptação escolar – tão difícil pelo fato de a criança passar muitas horas na creche ou escola, distante do adulto de referência. Uma saída sugerida pela palestrante foi a utilização de objetos transicionais: bichinhos, bonecas, panos, ou quaisquer outros que sejam uma espécie de “pedaço da casa”, aliados importantes ao bebê que se depara com ambiente e pessoas novas.

Outro fator levantado por Isabelle foi a rotina: “As crianças organizam o seu mundo interno a partir da coerência externa”. Manter as coisas num mesmo lugar, dividir os espaços para diferentes atividades (cantinho do descanso, outro de movimentação livre, etc), bem como estabelecer um ritual na hora dos cuidados (troca, alimentação e sono), fará com que a criança entenda os processos e não sofra com o “desconhecido”.

Que mundo recebe a criança?

Com a provocação “Quando uma criança chega ao mundo, que mundo chega a ela”?, a fonoaudióloga e psicóloga argentina Myrtha Chokler refletiu sobre a postura do adulto diante da criança e abriu inúmeras outras perguntas: Como ele a vê? Como um ser passivo, que recebe comandos, ou como alguém ativo, capaz e que interage, por meio de diálogos, desde os primeiros instantes de vida?

Será que há mesmo necessidade das chamadas estimulações sensoriais (muito comuns em creches, como quando as crianças são expostas a objetos ou situações para “trabalharem os sentidos”)? Ou a vida, por si só, já é pra lá de interessante e esse trabalho é feito naturalmente pelo bebê no dia a dia?

Ela também tratou de autonomia, reforçando a importância de o adulto permitir que a criança explore e descubra por si o que a rodeia. Essa é a forma que ela irá entender o mundo e se relacionar com ele. Jamais se deve fazer pela criança algo que ela dê conta de fazer sozinha: “Antecipar aprendizagens é antecipar fracassos”.

Não existe brincar que não seja livre

No último dia do evento, todas as palestrantes se reuniram para discutir um tema crucial e frequentemente debatido entre aqueles que lidam com crianças: o brincar. Segundo a Abordagem Pikler, oferecer objetos não-estruturados, que estimulem a exploração e a criatividade, são fundamentais para o desenvolvimento cognitivo, uma vez que é por meio da brincadeira que a criança irá estabelecer a sua relação com o mundo. “Brincar é um estado da mente. É colocar-se com a mente num espaço ficcional (‘como se’)”, disse Myrtha Chokler. E isso acontece a todo o momento, sobretudo com os pequenos – já que até os cinco anos, aproximadamente, eles não distinguem realidade de ficção.

Durante o Simpósio, dois títulos em português sobre a Abordagem Pikler foram lançados:

vínculo, movimento e autonomia

A partir de suas vivência com Formação Continuada de Profissionais de Educação Infantil e de seu envolvimento com a Abordagem Pikler, a autora compartilha com o leitor reflexões sobre o papel do educador de crianças pequenas e os pontos essenciais para promover o desenvolvimento físico, mental e emocional nos primeiros anos de vida, principalmente em ambiente coletivo.
O livro apresenta uma síntese da abordagem que Emmi Pikler construiu durante o período em que atuou como médica de família e diretora de um abrigo de crianças até 3 anos, no final da Segunda Guerra Mundial, em Budapeste. Essa pedagogia baseia-se no reconhecimento do bebê como um indivíduo capaz desde o nascimento, na valorização do vínculo afetivo, na liberdade de movimentos e no desenvolvimento da autonomia.
Neste título estão também presentes: reflexões sobre a consciência corporal do educador, com base na Eutonia – pedagogia terapêutica com aplicação nas áreas da educação, saúde e artes, que auxilia a reintegração da imagem corporal; ideias do filósofo e educador Rudolf Steiner a respeito da importância do movimento, do equilíbrio, do tato e do sentido vital na primeiríssima infância; e experiências de atividade não dirigidas desenvolvidas pela autora em seu espaço de pesquisa, formação e oficinas: o Ateliê Arte, Educação e Movimento.

As origens do brincar livre

É por meio do brincar que a criança experimenta o mundo e se desenvolve, por isso ele é tão vital quanto respirar. Neste livro, especialistas na Abordagem Pikler apresentam os principais conceitos para o desenvolvimento integral das crianças: estabelecimento de vínculo, respeito ao movimento livre e autonomia, com foco no brincar. Para isso, sugerem práticas que favoreçam as habilidades inatas dos bebês, como o preparo de um ambiente para a exploração , a seleção e organização dos brinquedos para cada fase e dão dicas sobre a postura do adulto, junto da criança, enquanto a brincadeira acontece.

Traduzido pelo Grupo Educar 0 a 3, situado em São Paulo e que tem por objetivo desenvolver consciência quanto ao significado e importância da infância junto a famílias e escolas, “As origens do brincar livre” é um dos poucos títulos em português que traz os conceitos e aplicações da Abordagem Pikler no cuidado de crianças na primeiríssima infância.

Leia também:

Educar criança de 0 a 3 exige sensibilidade e delicadeza: http://www.culturadapaz.com.br/educar-crianca-de-0-a-3-anos-exige-sensibilidade-e-delicadeza/