Um rio imenso, onde as pessoas se banham e fazem rituais; vacas e carros formando extensos congestionamentos; templos por toda a parte; muitas cores nos sáris das mulheres; e masalas temperando as comidas. Tudo isso é Índia. A Índia que habita em nossa imaginação parece compor uma realidade muito distante daquela que experimentamos aqui no Ocidente. Será que temos aspectos em comum?

Certamente que sim, mas para compreendê-los é preciso que desvinculemos o olhar das aparências e apontemos a seta pra dentro, acessando a nossa humanidade compartilhada. Queremos propor um caminho de investigação que enlace conceitos do método Montessori aos da filosofia How-To-Live, do mestre indiano Paramahansa Yogananda e, pela via da educação, leve a essa ponte que interliga Ocidente-Oriente.

Mas antes de mais nada, o que são?

Método Montessori é o nome que se dá ao conjunto de teorias, práticas e materiais didáticos criado ou idealizado inicialmente por Maria Montessori. De acordo com sua criadora, o ponto mais importante do método é não tanto seu material ou sua prática, mas a possibilidade criada, pela utilização dele, de se liberar a verdadeira natureza do indivíduo, para que esta possa ser observada, compreendida, e para que a educação se desenvolva com base na evolução da criança, e não o contrário. (Lar Montessori)

 

O currículo How-To-Live é a metodologia criada pelo mestre iogue indiano Paramahansa Yogananda, em 1917, ao fundar uma escola em Ranchi. Ela é baseada em quatro principais pilares para o desenvolvimento de uma vida equilibrada e saudável: Ciência do Corpo, Engenharia Mental, Artes Sociais e Ciência Espiritual Aplicada. No Brasil, há 10 anos, uma escola de educação infantil segue esses princípios no seu Planejamento Curricular: é a Escola Arte de Ser, situada no bairro da Lapa, em São Paulo.

 

4 Pontos em comum entre a Yoga e Montessori:

Nunca toque a criança, a menos que seja convidado por ela de alguma maneira.

Na ciência da yoga, o corpo é um templo que abriga a alma em seu processo de desenvolvimento. O respeito ao próprio corpo e ao do outro é fundamental. Cuidá-lo, fornecendo todas as condições para que esteja em sua plenitude, é um dos pilares da filosofia How-To-Live. Alimentação correta, hatha-yoga e exercícios ao ar livre são algumas das práticas recomendadas. No encontro com Montessori, a intersecção ocorre quando refletimos sobre o toque.

Crianças são fofas e, muitas vezes, parece impossível passar por elas sem – no mínimo – fazer um cafuné. Só que no ímpeto de atender aos nossos anseios, a gente se esquece de algo crucial, que é a vontade de a criança receber aquele carinho.

Para a médica italiana, quando a criança quer algum contato físico, insinua um convite. E, em sendo seu corpo uma propriedade particular – só devemos ocupar esse espaço se formos chamados a isso. Além do mais, o gesto forçado pode fazer com que ela se distraia daquilo que estava fazendo.

Nunca fale mal da criança em sua presença ou ausência.

As relações humanas são oportunidades de conhecermos nossos limites, desenvolvermos aptidões e trabalharmos – de forma sistêmica – pelo todo. E a diversidade é o tempero que favorece o germinar desses encontros. Falar mal de alguém que não está presente, além de não resolver em nada um possível conflito, impede que essa pessoa se defenda. No caso da criança, dependendo da idade, há ainda um agravante: a incapacidade cognitiva dela argumentar contra o que lhe foi impingido.

Nas artes sociais, outro pilar do How-To-Live, a gentileza é a matéria-prima das boas relações. Portanto, está fora de cogitação a crítica na presença ou na ausência da criança. Deve-se estimular a conversa empática e a conexão. A sinceridade com consideração e a verdade são a própria base das relações humanas para quem segue o caminho da Yoga.

Concentre-se em fortalecer e ajudar o desenvolvimento daquilo que é bom na criança, para que sua presença deixe cada vez menos espaço para o que é ruim.

A criança se desenvolve, aprende, quando a ensinamos algo e não quando a corrigimos. E como aprendizagem não está destituída de afeto, é fundamental que fortaleçamos as suas potencialidades preparando ali um terreno para o desenvolvimento de outras habilidades. Autoconfiante, ela irá traçar seu caminho de maneira cada vez mais autônoma e crescerá com segurança e alegria.

Em Engenharia Mental, Yogananda sugere que imaginemos a nossa mente como um jardim em que os pensamentos negativos sejam as ervas daninhas que devem ser podadas e, as virtudes, a seiva que faz a planta crescer em sua plenitude. Ele ainda ensina que se queremos nos libertar de um hábito indesejável, devemos cultivar o bom hábito oposto e não ficar remoendo em nós o que tendencialmente temos como errado.

Quando acentuamos o que é bom na criança, cristalizamos um roteiro sadio em seu cérebro e ela se sente capacitada a explorar, investigar, experimentar o mundo. Na medida em que a encorajamos a isso (atentando às situações em que ela corre algum risco ou oferece risco a algum ser vivo), sua vontade de conhecer se intensifica e ela desperta para novas possibilidades que lhe garantirão o desenvolvimento.

Respeite a criança que descansa, assiste ao trabalho dos outros ou pondera sobre o que ela mesma fez ou fará. Não a chame, nem a force a outras formas de atividade.

Qual o lugar do silêncio na aprendizagem? Enquanto observa, a criança atenta a detalhes, se concentra, desenvolve foco e outras aptidões. Nem sempre é preciso preencher todo o tempo com atividades, falas…é no encontro consigo mesma, e com seus apontamentos, que ela vai refletir e absorver o que aprendeu. Respeitar o período de pausa é dar a ela o tempo de maturação. Há que se perceber entre a criança que procura algo para fazer (e para a qual você pode apresentar algo) e aquela que está simplesmente descansando porque aquela é a necessidade do momento. Ela precisa ser respeitada.
O silêncio e o repouso para a ciência da yoga são elementos cruciais, uma vez que neles se encontra a oportunidade para grandes descobertas interiores e para se aprender os princípios da autoanálise, que também é a base do autoconhecimento.

Referência utilizada para os princípios Montessori podem ser encontradas no artigo do site: Lar Montessori

As referências sobre o currículo How-To-Live foram extraídas de textos do Grupo de Estudos How-To-Live, do Programa Omnisciência de Educação para Paz. Mais sobre o assunto aqui: https://educacaoparapaz.com.br/filosofia-how-to-live/

 

Curso Online – Introdução ao Método Montessori

Quer sugestões de práticas, baseadas no Método Montessori, para aplicação na família ou na escola? Dá só uma olhadinha no curso do Gabriel Salomão, que contém teoria e dicas simples de como transformar a relação com as crianças e contribuir para uma infância saudável:

https://bit.ly/2FQ82Xc