Abaixo, trecho do livro Meditações, do poeta e educador indiano Rabindranath Tagore, em que ele nos traz o ideal de uma educação apoiada nos elementos da Natureza.

Nesse momento de quarentena também podemos atentar aos detalhes da Natureza que nos chegam, troncos, folhas, pedras, e trazê-los para dentro de casa sugerindo a prática especial da contemplação e conexão com a Mãe Terra em família.

Tagore:

“Todos nós sabemos que as crianças amam a terra; seu corpo e sua mente estão, como as flores, sedentos de luz, de sol, de ar. Elas jamais se sentem inclinadas a deixar de ouvir os constantes convites que o universo faz a seus sentidos para que se estabeleça uma comunicação direta entre eles. 

No entanto, infelizmente para as crianças, seus pais, no desempenho de sua profissão, de acordo com as tradições sociais, vivem em um mundo peculiar de hábitos. Isso é, em grande parte, inevitável, porque os homens têm de se especializar, induzidos pelas circunstâncias e pelos imperativos da uniformidade social. 

Nossa infância, porém, é o período em que temos ou deveríamos ter mais liberdade: sim, estar livres da necessidade de nos especializarmos dentro dos reduzidos limites do convencionalismo social e profissional.

Tenho bem presentes a surpresa e o pesar de um diretor de escola muito experiente e que gozava a fama de ter obtido grandes êxitos quanto à disciplina, quando viu uma das crianças de minha escola subir a uma árvore, procurando uma forquilha entre os galhos onde pudesse se acomodar para estudar. Tive de dizer-lhe, à guisa de explicação, que “a infância é a única época da vida em que o homem civilizado pode escolher à vontade entre os galhos de uma árvore e qualquer assento da sala, e, assim sendo, deveria eu privar esses rapazes de tal privilégio, só porque a mim, por ser homem idoso, não me era permitido desfrutá-lo?” O surpreendente é perceber que esse mesmo diretor da escola achava natural que as crianças estudassem botânica. Ele acreditava que é excelente o conhecimento impessoal da árvore, porque é ciência; mas não pensava o mesmo a respeito da experiência pessoal. Esse desenvolvimento do conhecimento prático ajuda a formação de um instinto, que é resultado desse método de instruir próprio da própria natureza. As crianças do meu colégio adquiriram um conhecimento instintivo da fisionomia da árvore. Tocando-a apenas, eles já sabem onde encontrar um pequeno espaço cômodo em um tronco aparentemente inóspito; sabem muito bem até onde chega a resistência dos galhos e como distribuir o peso do corpo para que ele se torne o menos pesado possível para os galhos pequenos. Meus alunos estão capacitados para tirar o maior proveito de uma árvore, recolhendo seus frutos, descansando em seus galhos e nela se escondendo de perseguidores temíveis. Quanto a mim, fui educado em um lar culto da cidade e, no que se refere a minha conduta pessoal, vi-me obrigado a comportar-me durante minha vida toda como se tivesse nascido em um mundo em que não houvessem árvores. Por esse motivo, considerei que é parte da educação que devo dar a minhas crianças deixar que elas se deem conta exata de que vivem dentro de um plano de vida em que as árvores são um fato substancial, e não apenas alguns seres geradores de clorofila, destinados a depurar o ar do carbono, mas árvores vivas.”