Domingo de manhã era o único período que o psicólogo Marshall Rosenberg tinha para curtir a família, mas – numa ocasião dessas – alguns de seus pacientes procuraram por ele: um casal que vivia inúmeros conflitos conjugais e uma moça, que estava sentada nos trilhos do trem, e foi levada pela polícia. 

Ele abriu a porta de sua casa a todos e, na medida do possível, atendia de forma compassiva marido e mulher na cozinha e a moça na sala, alternando entre eles. De repente, ouviu uns sons agudos vindos da parte de cima. Eram seus filhos brigando. Marshall não teve dúvida, subiu as escadas e com dois gritos fez com que os irmãos corressem para seus respectivos quartos.

Foi o tempo dele recobrar a sensatez para que se desse conta da postura contraditória que tinha adotado. Lá embaixo, com seus pacientes, uma escuta acolhedora, mas com os filhos a escolha pelos gritos nada compassivos. “É muito fácil desumanizar as relações, pelo simples fato de ver essa pessoa como ‘meu filho’”, conta o psicólogo no livro “Criar filhos compassivamente”.

O “meu” denota posse, uma relação de poder, verticalizada: e uma das premissas da Comunicação Não-Violenta, sistematizada por Marshall, é ver no outro um ser humano como você. Afinal, os sentimentos e algumas necessidades são universais, pertencem a todos. Alinhar as “humanidades” é um primeiro ponto para o sucesso de uma relação. 

Crianças, pré-adolescentes e adolescentes, sobretudo, têm uma dificuldade muito grande de responder aos pais da maneira que estes gostariam. E isso, na maior parte das vezes, é o germe das discussões e desentendimentos. Obviamente, existe uma questão familiar hierárquica e, pelo menos até atingirem a maioridade, os filhos têm de responder ao pai e à mãe, mas é possível encontrar caminhos mais respeitosos ao longo desse processo educativo. 

Querer que o outro faça algo como você gostaria é cercear o direito dele de escolha, ameaçar a sua autonomia. Mas olha só que coisa, ainda assim essa parece ser a forma com a qual os educadores mais lidam com os filhos. Pelo menos nos Estados Unidos. 80% dos americanos acreditam na eficácia do castigo físico! 

Muito se falou e fala, ainda, a respeito do “tapinha” aqui no Brasil e há inúmeros estudos apontando que essa não é melhor medida disciplinar. Elizabeth Gershoff, PhD da Universidade do Texas, desenvolveu uma pesquisa sobre o tema: “Os estudos demonstram que bater leva a mudanças negativas no comportamento. Não há estudos mostrando que as crianças melhoram.”  

O caminho da Comunicação Não-Violenta sugere uma via mais amorosa. Segundo Marshall, é muito importante que, desde cedo, mães e pais conversem com seus filhos a respeito do que sentem. Criar um vocabulário nesse sentido contribui não só para que o adulto conheça melhor a criança/o adolescente, como também, na hora de uma situação desafiadora, o filho, sobretudo, pode entender e comunicar com clareza o que se passa com ele. 

É algo que transcende a palavra, sabe? A ligação, penso que “vínculo” defina melhor, ganha profundidade. Porque sai do campo do óbvio, do automatismo, e ganha um caráter empático, no qual há aquele encontro de humanidades de que falamos ali em cima. Sim, é um trabalho e tanto esse, sobretudo porque ele passa pela auto educação, mas existem muitas formas de aprimorar a relação com o seu filho sem que haja excesso de permissividade ou autoritarismo. Há um, uns, caminhos do meio que possibilitam uma conexão genuína e afetuosa. 

É sobre isso, e outras coisas mais, que Marshall Rosenberg fala no livro “Criar filhos compassivamente”. Nele, você encontra os princípios básicos da Comunicação Não-Violenta e, por meio de histórias, a prática cotidiana. Imperdível!

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