Tânia Landau, Maria Vasquez, Eliana Sisla, Myrtha Chokler, Silvia Nabinger, Cisele Ortiz e Etienne Moine

Crédito da foto: Saul Nahmias

“Entrar em contato com a criança é entrar em contato com a própria vida, que nos convida a um outro ritmo.”

Quando teve filhos, Maria Del Carmen Vasquez visitou diferentes creches e escolas em sua região, no Equador, a fim de encontrar – em alguma delas – uma abordagem que respeitasse o tempo da criança possibilitando seu desenvolvimento por meio de um cuidado particular, em que o bebê pudesse ser observado e respeitado em seu ritmo – como na sua fala acima.

A pesquisa serviu, apenas, para detectar a fragilidade do sistema de ensino local e como ele está muito aquém de uma pedagogia humanista. Ela e seu marido, Etienne Moine, decidiram, então, investigar modelos educacionais afinados aos seus valores pelo mundo. E a viagem tinha dois motivos: o primeiro, era o de alimentarem-se de esperança e, o segundo, buscarem inspirações para um sonho que mais adiante viraria projeto.

A Fundação Ami, situada na cidade de Cotacachi, no Equador, é a materialização dessa ideia e atende, sobretudo, crianças da região – que, de outra maneira, não teriam a possibilidade de estudar. O espaço é composto de pequenas instalações circundadas por uma rica área verde, onde ficam os pequenos na maior parte do tempo.

Talvez, de tudo o que a Fundação apresente, sua maior riqueza seja o material humano. Uma equipe treinada pela própria Maria realiza seu trabalho de forma efetiva respeitando o tempo e o espaço da criança e facilitando o ambiente para que ela explore à vontade com bastante autonomia.

E isso ficou muito claro com os vídeos exibidos por ela e Etienne no “Diálogos Culturais: práticas e cotidianos que respeitam as crianças pequenas”, evento que reuniu em torno de 420 pessoas, todos educadores de crianças na faixa etária dos 0 aos 3 e, 50% deles, pertencentes à rede pública de ensino.

O evento foi organizado pela editora Converso Educação e coordenado por Tânia Fukelmann Landau e Eliana Sisla. Elas montaram uma programação que contemplasse os principais fatores que envolvem os cuidados na primeiríssima infância, sobretudo a Abordagem Pikler, para inspirar o público, sedento de novas ideias e estratégias para suas dinâmicas de trabalho. Maria e Etienne, pela referência que é a Fundação Ami, abriram os trabalhos apresentando, em um rico material audiovisual, aquilo que desempenham por lá.

Não existe trabalho bem-sucedido sem observação. Observação das crianças, de como nos portamos diante delas, de como lidam com determinadas situações, enfim, para olhar pra educação com uma lente grande angular, que contemple tudo, é preciso apurar esse sentido. E Etienne é o parceiro certeiro de Maria por conta disso. Cineasta, ele responde pelos registros em vídeo da rotina da escola.

Com eles, vê-se na prática a influência de diversas pedagogias que entendem a criança em sua integralidade e, sobretudo, singularidade. Para saber que tipo de ambiente preparar, o que oferecer a cada uma, é preciso conhecer seus gostos e habilidades, afinal, um bebê não é um ser passivo – mas ativo desde o começo, com emoções, medos e iniciativas.

Os vídeos mostram longas atividades realizadas pelas crianças, em que o cinegrafista é apenas parte da paisagem e – de forma sensível – registra aquilo que elas fazem. Um exemplo no telão: 5 minutos de observação de um menino e uma bola azul. Depois de deixá-la escapar para um lugar inalcançável aos seus bracinhos curtos, o garoto estuda uma estratégia para recuperar o seu brinquedo. Ele analisa por um longo tempo e opta por subir na estrutura de madeira na qual a bola se encontrava escondida e, finalmente, consegue tocá-la.

Esse material renderia inúmeras discussões entre os professores para que se observasse, ali, os detalhes dessa aventura, sem desconsiderar o caráter formativo – no sentido orgânico e psíquico – daquela experiência. Uma criança, sobretudo até os três anos de idade, está constituindo sua rede cerebral e permitir que ela o faça sem a interrupção de um adulto é contribuir para que vá formando essa estrutura.

“Todos nós chegamos com essas condições que tornam possível a nossa existência”, diz Maria ao se referir à potencialidade de desenvolvermos habilidades motoras, cognitivas e emocionais por meio do brincar livre. Segundo ela, também, “o adulto tem de ser um recurso dentro do ambiente e não um incômodo”. Dando à criança a autonomia de que precisa para explorar, ele permitirá que ela crie sulcos cerebrais que, inclusive, a auxiliarão no aprendizado das disciplinas escolares.

O que dizer de uma menina que enche um balde com água e o despeja em um recipiente maior? Ali, ela está lidando com peso, volume, distância…de alguma maneira, entrar em contato com esses elementos facilitará, mais adiante, o entendimento da matemática. E tudo isso se dá no espaço sem forçar a barra. “As oportunidades não precisam ser criadas, elas acontecem naturalmente”, frisa Etiene.

Respeitar a própria natureza da criança, tantas vezes mencionado na primeira etapa do encontro, é uma das bases da Abordagem criada pela pediatra húngara Emmi Pikler, que desenvolveu um trabalho, hoje reconhecido mundialmente, no que diz respeito aos cuidados de crianças na primeiríssima infância.

À frente de uma instituição de acolhimento, na cidade de Budapeste, no pós-guerra, ela desenvolveu ali uma forma de lidar com os bebês que destoava das outras instituições. Com um atendimento personalizado a cada criança, possibilitou que elas chegassem à vida adulta sem nenhum traço de hospitalismo ou dificuldade de relacionamento – algo característico a quem viveu em um abrigo.

Os conceitos da dra. Pikler vêm sendo cada vez mais incorporados às escolas de educação infantil, uma vez que a neurociência e diferentes entidades voltadas ao desenvolvimento e aos direitos das crianças têm apontado a importância dessa etapa da vida. Estabelecimento de vínculo e movimento livre em um ambiente que favoreça a autonomia dos bebês são os seus pilares.

E, para falar um pouco sobre eles, durante o evento, a presidente da Rede Pikler Nuestra América, Myrtha Chokler, trouxe para reflexão a seguinte pergunta: quando uma criança chega ao mundo, que mundo chega à criança? Infelizmente, o trabalho desenvolvido pela Fundação Ami ainda é minoria ao redor no planeta e há muito descompasso no que diz respeito ao cuidado de crianças pequenas por aí.

As instituições de ensino, e seus profissionais, muitas vezes não foram capacitados para desempenhar seus trabalhos de forma mais afetiva, contemplando a integralidade do ser. Com uma demanda enorme e poucos recursos, tanto materiais quanto conteudistas, eles se veem em uma situação embaraçosa na qual cumprir uma rotina pré-estabelecida pela coordenação já é a glória de seus trabalhos.

Myrtha contou uma história que vivenciou em uma de suas visitas a escolas: A professora havia espalhado pela sala, formando um emaranhado, rolos de papel higiênico. As crianças circulavam pelo espaço e os papeis, frágeis, rasgavam muito facilmente. Um menino lhe chamou a atenção: extremamente nervoso, segurava um rolo de papel (vazio) e tentava, meio que sem êxito, guardar ali pedaços do que encontrava no chão.

Para além de uma interpretação literal e equivocada, de que ele se divertia à sua maneira organizando aqueles pedaços de papel, há uma leitura psicológica que norteou a consultoria dada por Myrtha à escola naquele momento. Até uma determinada idade, as crianças não sabem onde terminam, desconhecem seus limites corporais. Entendem que objetos e pessoas são prolongamentos de seus corpos. Ao ver aqueles papeis higiênicos, o menino via a si mesmo desfazendo-se em pequenos pedaços e – com um certo desespero, até – ele amealhava os restos como que se quisesse se remontar.

As práticas escolares e, sobretudo, uma nova leitura no que diz respeito às crianças na faixa etária dos 0 aos 3, vão possibilitar que caminhemos certamente a um período mais solidário e positivo para todos. Sylvia Nabinger, presidente da Rede Pikler Brasil, enalteceu o trabalho desempenhado pelos professores e disse algumas palavrinhas encorajadoras a eles durante o evento: “somos nós que vamos mudar o país e não algum partido político.”

Mas muita coisa precisa ser feita: 67% das famílias mais pobres gostariam de ter seus filhos em uma creche, porém apenas 15% conseguem vagas. É, também, preciso pensar que “quem cuida quer ser cuidado”, então faz-se necessário dar um respaldo aos 5 milhões de professores que existem no Brasil. Disse, no púlpito, a educadora Cisele Ortiz: “Se os adultos não tiverem sustentados para poderem manifestar suas angústias, não será possível fazer transformações na área da educação.”

Bom, é por conta disso que se tem de celebrar iniciativas como este evento e apontar como é especial o trabalho desenvolvido pela Rede Pikler Brasil. A imagem de um mapa-múndi com as iniciativas Pikler espalhadas pelo planeta mostra que, aqui, elas já alcançaram todos os estados. O encontro, que reuniu educadores das diferentes regiões do Brasil, e expôs fotos de iniciativas afinadas aos princípios da abordagem, dá uma ideia de que vimos caminhando, ainda que a passos lentos. Mas há que se fazer mais: levar os pilares e práticas da Abordagem Pikler a outros lugares. E, para isso, parece que as, aproximadamente, 400 pessoas presentes, já se dispuseram a fazer.

Materiais sobre a Abordagem Pikler em português:

Livros

                                   

DVD’S

              

Site da Converso Educação: https://conversoeducacao.com.br/

Site da Rede Pikler Brasil: https://pikler.com.br/

Site da Fundação Ami: http://fundacionami.org.ec/wp/